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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Uma noite a observar....

Já falou tantas vezes, já ouviu tantas palavras e ainda é um ser em construção. Já somou bens, amores, dívidas, realizações; mas corre para buscar o novo. Novo?

Já respirou ares de montanha, de praia, tremeu de frio, ensopou no verão, mas ainda guarda energia para um tempo que está por vir.

A música preferida já tocou, o melhor filme já foi visto só que não cansa de sonhar com a melodia pessoal, o acorde no tom perfeito.

Enquanto houver essas conquistas a serem buscadas, enquanto traçar na mente um caminho novo a ser percorrido, esse senhor a minha frente não se dará por vencido. Ele se encontra aqui, imaginariamente a minha frente, sentado a duas fileiras de poltronas, enquanto a barca rasga a Baía de Guanabara.

O vento que lhe escorre pela face é denso, quase perceptível perto dessa invisível brisa que me vem espantar o calor. A natureza é sábia, sabe como tratar os mais velhos...

A barca chega a seu destino, ele demora a levantar-se, parece querer aproveitar cada minuto, cada fração de segundo que a vida lhe proporciona. Invejo aquela calmaria, tento interiorizá-la, mas ela não é minha, ainda não faz parte do meu repertório...

Passo pelo senhor e desço as escadas apressado. Antes, porém, olho pra trás e sou recebido com um sorriso. Ele parece ler meus pensamentos. Rio constrangido e sigo meu caminho.

Me perco na loucura da multidão da cidade grande; me acho na calmaria do papel, da caneta, do mar - e eu.

sábado, 28 de agosto de 2010

Voando na beca.

Depois de longos dias sem postar, voltei.

Curioso fiquei nesses últimos dias com um fenômeno que observei ao ir para Belo Horizonte de avião. Percebi (acho que não é novidade para muita gente) como o público-alvo das empresas aéreas está mudando. Claro, pensarão os amigos, tudo resultado da política de popularizar o transporte aéreo, com passagens mais baratas, vendas na internet e todos esses conceitos que já conhecemos. Antes de mais nada, aliás, quero deixar bem claro que sou completamente a favor da popularização do setor aéreo e de todos os outros serviços usados praticamente por uma classe mais elitizada. Acho perfeita essa abertura, desde que o serviço mantenha um mínimo de eficiência (minha maior preocupação com o transporte aéreo). Mas esse não é o motivo principal desse texto, deixemos essa resenha para depois...

O que me chamou a atenção mesmo foi a maneira como as pessoas tratam essa possibilidade de voar, viajar num transporte que antigamente seria financeiramente impossível. Essa relação com o novo traz aspectos interessantes. Mas hoje, particularmente, vou me prender a uma relação que chamo de: Viagem de avião merece roupa de domingo! Entenderam a relação? Vou tentar ser mais claro:

Peguei o voo do Rio para Belo Horizonte, num sábado, às 8h da manhã. Fazia um frio leve na Cidade Maravilhosa, mas eu tinha a informação de que o tempo estava bom lá pelas Alterosas. Quando cheguei no aeroporto, vestido com minha roupa de todos os dias (jeans, tênis, camisa de malha), percebi senhoras arrumadas, com batons, cabelos preparados, roupas dominicais, perfumes daqueles mais doce que mel; prontas para embarcarem no mesmo voo que eu. Esse era um fenômeno quase que total dos passageiros. O povo estava 'nos trinquis', como diriam uns mineiros - como eu. Fiquei observando esse fenômeno, enquanto éramos levados para a aeronave. Mais do que achar curioso, achei muito legal ver a alegria de pessoas que tinham essa oportunidade devido ao preço da passagem (R$ 65,00) e, claro, comentávamos como era rápido e não precisávamos ficar horas dentro de um ônibus da viação Útil ou Cometa. Essa comparação, por sinal, foi um papo que tive com duas pessoas diferentes, tudo isso em menos de duas horas, entre a espera do voo e a chegada em BH.

Mas meu entusiasmo com o fenômeno observado acho que só foi possível porque eu fazia parte daquele movimento. Sempre fui um assíduo viajante de ônibus nessas idas e vindas entre Rio-BH, mas agora... agora não, eu fazia parte daquela parcela de inclusos no movimento aéreo. Senti-me como um verdadeiro malandro, que ria baixinho daqueles que não tiveram a ideia de pesquisar o preço na internet e acabaram atravessando por terra a BR-040 por longas horas.  

Nesses pequenos momentos dos nossos dias que percebemos como as coisas mudam aos pouco, as perspectivas se alteram, vemos classes que não tinham acesso a determinada ferramenta tendo a oportunidade de usufruir um pouco mais de conforto e outras sutilezas que passam batidas no meio de nossas rotinas. 

A senhora ao meu lado não conseguia esconder o sorriso, aquele sentimento de quem está alcançando um sonho de longo tempo. Embarquei naquele sentimento e percebi o quanto pequenos momentos podem nos encantar e fazer o dia ficar melhor. Não tem como esquecer a felicidade daquela mulher, com aproximadamente 60 anos, toda produzida dominicalmente. Ela tentava entender como sua poltrona poderia ser a 21N (número e letra?).

Uma graça, parecia uma criança descobrindo o mundo. Valeu o ingresso - voltarei mais vezes, só que com meu traje de domingo.

(Imagem retirada do site: http://3.bp.blogspot.com/_K7W25PFSWig/SdT-uNKEk7I/AAAAAAAAAO0/qVP3GMd2Kjs/s400/aviacao-low-cost.jpg)

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Deixando um recado...

Tirando a poeira daqui... o ESCONDIDIN estava abandonado - coitado, mas eu estou voltando. É que estou numa correria nova, mas prometo que logo-logo volto com texto novo. Aguardem, amigos! E não deixem de se esconder por aqui, ok?


Inté mais.

terça-feira, 13 de julho de 2010

"Passeio Socrático" (Frei Betto).

Recebi esse texto da minha prima, Carolina. Achei fantástico e resolvi 'escondê-lo' aqui. O texto é do grande Frei Betto. É o retrato do nosso mundo louco por consumo, onde até as relações interpessoais entram nesse jogo.

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FREI BETTO

"Ao viajar pelo Oriente mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente.

Aquilo me fez refletir: 'Qual dos dois modelo produz felicidade?'

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: 'Não foi à aula?' Ela respondeu: 'Não, tenho aula à tarde'. Comemorei: 'Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde'. 'Não', retrucou ela, 'tenho tanta coisa de manhã...'. 'Que tanta coisa?', perguntei. 'Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina', e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: 'Que pena, a Daniela não disse:

'Tenho aula de meditação!'

Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: 'Como estava o defunto?'. 'Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!' Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual.. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais...

A palavra hoje é 'entretenimento'. Domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: 'Se tomar este refrigerante, calçar este tênis, ­usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!' O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba­ precisando de um analista. Ou de remédios.

Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental, três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno...

Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald...

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático. Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "ESTOU APENAS OBSERVANDO QUANTA COISA EXISTE DE QUE NÃO PRECISO PARA SER FELIZ!""

Pessoas pelo mundo que passaram por aqui:

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