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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O ex-futuro chato.


Quando comecei no jornalismo, há mais de 10 anos, ouvia muito que nós (eu não mais) éramos formados para falar de tudo, sem ser especialistas sobre nada. Isso sempre martelou minha cabeça. Ficava meio angustiado, talvez um pouco visionário, pensando: Como posso ser contratado por uma revista, por exemplo, para escrever sobre culinária ou automobilismo? Não tenho a menor condição (preparo) de fazer isso.

Talvez essa palpitação tenha sido uns dos fatores do meu divórcio da profissão (do qual me orgulho de ter tomado esse rumo). Mas o interessante disso tudo é perceber que o jornalismo de escola, aquele acadêmico, era um visionário do que viria a ser esse mundo de hoje, transbordado de redes sociais. Afinal de contas, o que são os inúmeros pontos de vista que elas nos proporcionam? Nos posicionamos sobre tudo que ocorre no mundo, com uma superficialidade impressionante, muitas vezes não ultrapassando os 140 caracteres.

Imagem retirada do site: http://noticias.r7.com/blogs/ogg-ibrahim/files/2012/05/chato1.jpg
Confesso que isso me incomoda um pouco, mas, paradoxalmente, compartilho desse momento. Talvez como um dos últimos resquícios que ficaram da ex-profissão, me vejo em vários momentos opinando sobre coisas que não domino.

Concordo que essa patrulha atual é chata, que pior do que comentar sobre tudo é ver o mundo te apontando por ter opinado sobre algo que não domina. Verdade! Estou ao mesmo tempo nesses dois lados, desafiando a física, mas coexistindo no lado de quem aponta e de quem é apontado.

Tento segurar a onda, e passo alguns minutos refletindo sobre a história que estamos construindo – eu sei que analisar a história quando ela se desenrola é complicado – só que, ao mesmo tempo, deixo esse lado chato (de formação jornalística) existir por algum tempo, talvez como uma herança de uma equívoco profissional, uma tatuagem que não se apaga.



O jornalismo é fantástico, pessoal (apesar da podridão escamoteada), a faculdade é empolgante, mas o problema sempre fui eu. Não nasci para aquele riscado, minha praia é outra, minha rotação é diferente do inquietante ambiente jornalístico. Deixo para os verdadeiramente aptos e continuo só com essa “chatidão” de quem não foi, mas que também não se arrepende de não ter sido.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Madrugada.

A escuridão que ali morava era interrompida pelo acende e apaga da luz neon que vinha lá da rua. O silêncio era substituído por angústia, dessas que invadem o peito e fincam estacas. 3 horas da manhã e o celular rodando na mesa de centro pela mão inquieta fazendo-o de peão. Era tarde, era cedo, só não era ser aquele homem, feito um zumbi, com o rosto melado de um suor testemunho. O barulho do ponteiro do relógio da cozinha invadia a sala, marcando, naqueles olhos cansados e profundos, a conexão mais próxima com a realidade.

A madrugada é cruel, ela não perdoa reflexões em seu terreno, age com o sono como arma, conduz à cama ao som do silêncio. Mas ali há um desafio, um ser embriagado de pensamentos, digerindo suas atitudes, tentando entender o que o fez chegar até ali.

Lá do corredor vem a sombra da paz, dormindo no quarto da criança, aquele ser que cisma em ter seu mundo próprio, sem alcançar a gravidade do que é estar no mundo, da responsabilidade, dos compromissos que se amarram pela vida. O sono é profundo, a respiração tranquila. 

O homem caminha atropelando as palavras que mentalmente produz. O jornal jogado sobre a mesa, a essa hora, já não serve mais, é só uma soma de papéis com prazo de validade vencido. Tudo posto, tudo milimetricamente distribuído pela casa antes do adeus do dia: o sono.

Geladeira funciona como fonte de consolação a essa hora. Ele para escorado à porta aberta, como a admirar uma vitrine com camisas em promoção. Encontram-se escondidos naquele gelado objeto aquilo que trará a respiração de volta. O cérebro é curioso, se assanha todo no encontro com um pedaço de torta, a essa altura exalando um forte cheiro inebriante.

Chega o jornal pro lado e encara aquele pedaço como um paciente de frente para o analista: é sério, é preciso e definitivo. Os comandos que saciam a angústia são devorados ralo abaixo. O banho acalma a temperatura do corpo, termina de misturar as palavras ainda teimosas, encaminha à cama o homem cansado.

A noite vai vagando casa adentro, como se dominasse o ambiente, tendo o poder de decidir o tom e o ritmo das casas. A noite começa lá dentro e aos poucos vai ganhando as ruas. Como a buscar uma explicação para essa mudança tão grande, num pedaço de tempo tão curto? 

O Sol é externo, ele invade sem piedade os corpos, afagando violentamente a calmaria que a noite produziu. Ele era pra trazer a paz, os pássaros despertam, as cores se multiplicam, só que, na verdade, ele produz o caos. O mundo lá fora já se atropela...

Lá dentro, enquanto a criança desperta num olhar atento, o homem dorme, profundo...

domingo, 25 de janeiro de 2015

O que te incomoda?

A gente já sente as marcas desse mundo virtual nos rodear o tempo todo. Conforme-se, meu veio, se conforme com esse imediatismo rotineiro... Faço esse mantra pra mim mesmo porque sou um dos mortais ligado demais aos aparelhos tecnológicos prestes a trazer uma nova mensagem, à mão para saber as notícias dos amigos, a vida de pessoas que de diversas formas cruzam essa nossa passagem no mundo.

Mas umas particularidades me incomodam mais nesse frio mundo virtual: Percebo a multiplicação da carência das pessoas, a escorrer pelas telas do computador. Será um sinal mesmo desse momento que vivemos, onde a ausência(física)/presença(o tempo todo virtualmente) dos que nos cercam se acentuam cada vez mais? Ou será o mero fato de possuir um mecanismo capaz de dizer ao mundo o que se está fazendo, de compartilhar os momentos de felicidade, de angústia, a comida que se come,...? Sei lá.

Dessa insana constatação, uma me diverte (talvez até um pouco cruel, mas é esse o sentimento: diversão), em particular: Como tem gente achando que existem muitos invejosos de plantão de olho em suas vidas!? É muito interessante esse fenômeno. As vezes fico pensando que perdi alguma parte da festa, parece que meus conhecidos se tornaram famosos e eu nem percebi, tamanha preocupação com os "olhares gordos" em suas direções. Doce mundo virtual!

Viver o momento do "chuta as invejosas" não é caminhar num mar de rosas. Acredito que ainda estamos tateando essa convivência com essas novidades, essas máquinas nos acompanhando 24 horas. Chegaremos num meio termo, sem abrir mão das facilidades que elas oferecem, mas, ao mesmo tempo, tendo noção de usar nos momentos adequados. Será?

E o que dizer do "pau de selfie"? Uma jogada de mestre do inventor, bato palmas, e não descarto um objeto desses, é uma ótima ferramenta para tirar fotos com todos os amigos reunidos, sem deixar de fora o sujeito do click. As vendas do PDS dispararam no verão, virou uma febre brasileira, um retrato mais fiel desse mundo virtual. As fotos agora são tiradas de fora pra dentro, para registrar a gente, sempre a gente. Redescobrimos o umbigo e temo que o centro da Terra se encaminhe para essa parte do corpo um tanto quanto.... esquisita.

Me incomoda, muita coisa me incomoda...

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Vizinha do 61.

Há um ano moro sozinho e, desde então tenho observado com mais calma os fatos que acontecem ao meu redor. No 61, logo aqui em cima, mora uma senhora sozinha. Deve ter uns setenta e alguma coisa e, coitada, sofre de problemas psicológicos, fruto da idade - e de abandono também. O aspecto é de mulher sofrida, corpo magro, rosto triste e com as expressões faciais abatidas. O olhar perdido denuncia as restrições psicológicas, de quem jamais poderia morar sozinha.

(Imagem retirada do site: http://goo.gl/yhPbGm)

Lá de cima ela joga tudo - sofro com esse desprendimento. Já voou café, papel molhado, roupa, panos e até um ovo, que não posso garantir, mas, pelo histórico, acho que veio diretamente do 61. Os passos dela pela noite são como de alguém vagando por uma rua desconhecida, é agoniante. Esses dias essa senhora estava brigando sozinha, dizendo palavrões aos montes, numa batalha campal com algum desconhecido. Os outros vizinhos, pouco compreensivos e muito impacientes, se agitaram numa gritaria desnecessária, mandando-a calar a boca, "sua velha louca". O silêncio veio logo depois, fiquei imaginando o sofrimento dela...

Ela dorme numa rede, e o barulho do vai e vem é como uma marcação de um relógio que sinto dentro de casa. Um dia tive que visitá-la. Junto com o pedreiro e alguns curiosos fomos verificar um possível vazamento no banheiro que estava atormentando minha vida (morar sozinho não é fácil, é preciso bater o escanteio, cabeçar e correr para fazer a defesa). Pela primeira vez entrei na casa 61, a falta de móveis me assustou. Só havia a rede, uma televisão em cima de uma cômoda, e nada mais. Ah, importante salientar, vivo numa kitnet, desses imóveis de 20m², onde sala e quarto são sinônimos e cozinha é um espacinho reservado no canto do quarto/sala. A casa dela é igual a minha. Ela só tem uma TV, uma cômoda e a rede.

Entramos na casa, sob total desconfiança da moradora. Enquanto visualizávamos o banheiro, ela ia proclamando impropérios para gente, em voz baixa, angustiante, inaudível. O banheiro era um caos! Minha mente, seletiva como só, apagou a imagem, mas o que não tem como esquecer era a maneira como ela tratava o vazamento que, pelo visto, já se instalara há tempos. Ela abusou do uso de massa branca, vedando passagens da água no banheiro. O canto das paredes estava branco e encharcado, lógico que a água tinha que jorrar... na minha casa.

Enquanto descíamos as escadas, o faxineiro tentava me explicar: - Essa mulher é maluca, vive aí sozinha... Silenciei. O vazamento foi consertado, o trabalho começou lá no 61 e terminou no meu apartamento, dias depois. 

Os barulhos diários dessa senhora são melancólicos, perdidos como seu olhar, mas, talvez ela não saiba que, de alguma forma, essa sua solidão me faz companhia. A rede balança nos meus ouvidos, meu varal recebe os lixos de lá de cima, mas, ainda sim, consigo sentir que pelo menos ela ainda está viva e que tem alguém, literalmente, atento aos seus passos.

Nesse momento, ela parece balançar na rede como uma criança, tamanha velocidade que o barulho sugere.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Coisas do coração...



O amor não tem idade...

Curtindo alguns dias de férias na aprazível cidade de Teresópolis/RJ, onde fui criado e criei vínculos de amizade que carrego por toda vida, fui surpreendido esses dias com diálogo de duas crianças na faixa etária de 5 a 8 anos, aproximadamente.

Pode parecer banal, mas gostaria de compartilhar com os amigos essa divertida, espontânea e sincera conversa:

(...)

Eu estava observando os dois baixinhos conversando, mas eles não perceberam minha presença. A menina, mais velha, perguntou, curiosa:

- Por que você não está mais namorando?

O menino mais novo respondeu, dando as costas para ela:

- Terminamos.

- Por que, você ‘traiu ela’? – perguntou, na lata.

- Não – respondeu o baixinho mudando o semblante e fazendo cara de triste, de dor – ela que me traiu.

(...)

Assim! Achei divertidíssima a verdade que ele se deixou levar, sem cena, sem mentiras, nem teatros. Sentei para rir da cena, admirado e fiquei feliz demais de ter presenciado esse diálogo.

O amor é visceral e já começa a semear suas potências e angústias mesmo antes de sabermos realizá-lo em sua plenitude.  


As crianças são craques em externar seu sentimentos, elas são incomparáveis!


sábado, 17 de agosto de 2013

Aprecie com moderação.

Uso ferramentas modernas para recuperar sentimentos para lá de antigos. Navego por redes artificiais, não palpáveis, em busca de algo concreto, que dê sentido. 

De manhã acordei assim, nostálgico de mim. Vontade de sair um pouco desses fios invisíveis que nos metemos, dessa conexão atordoante que a vida (pós)moderna  nos colocou, de dar um salto para longe da areia movediça que a conexão instantânea me afundou. Cansado!

O mais desafiador é usar uma ferramenta típica da sociedade virtual para postar minha nostalgia. Mas aqui me apego e é como se estivesse tecendo letras em papel envelhecido, pautado, com cheiro...

Escrever é um desafogo, um alento das concretudes cada dia mais virtuais na nossa rotina. As pessoas já caminham olhando para baixo, mirando o celular, sem se preocupar, muito menos perceber as coisas que acontecem ao redor (me incluo nessa triste constatação). Hoje, o mais próximo é que está longe, a questão do tempo entrou em colapso, e tenho dificuldade de compreender isso com clareza.


(Imagem retirada do site: http://goo.gl/cLs3QJ)

Me deparo com uma cena que me angustia: Se estamos com alguém e o celular toca, o aparelho vira, naquele momento, o objeto mais importante do mundo, mesmo que se saiba que a ligação em si não tenha tanta importância. O interlocutor fica a deriva, esperando a ligação acabar para ter novamente a atenção da pessoa. Somos celular/dependentes!?

Na linha das novidades do mundo tecnológico, acrescento como as máquinas digitais - assim como os celulares usados como máquinas - ocupam o lugar dos olhos. Basta ver qualquer atrativo turístico para perceber: as pessoas tiram foto até do que nem imaginam, e muitas vezes, e essa é a principal questão, deixam de olhar, de vivenciar aquele momento, tudo em busca de ter um cem número de imagens que, em breve, serão despejadas nas redes sociais, numa espécie de demarcação de território, um jogo de conquistas que determina por onde já se passou.

Mas, obviamente, sei de todos os ganhos que tivemos com esses avanços e não sou nenhum xiita que é contra os avanços tecnológicos, radical contra qualquer tipo de inovação. Só me preocupa a intensidade com que nos apoderamos das ferramentas, como se fossem vitais, como se se tratassem de verdadeiros instrumentos de sobrevivência contemporâneos. Acredito que não, temos que usá-las a nosso favor, mas sempre sem se esquecer dos encontros reais, das paisagens com vento no rosto, num por-do-Sol belorizontino, num livro infantil contado para uma criança, numa conversa, onde os principais agentes são aqueles que estão trocando ali vivenciando as expressões, gestos e experiências. O telefone é ferramenta; e poderia ser aquele antigo, vermelho, usado só para ser atendido em caso de urgência.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Esse povo que só sabe reclamar de quem reclama.

E os caras não param de reclamar!

Exclamação para enfatizar, marcar uma conclusão impaciente, de quem já viveu muito e não consegue mais entender por que as pessoas reclamam tanto da vida. O pouco cabelo contrastando com os vastos que saiam da orelha são mostras que vaidade é coisa para jovens, pra quem perde tempo com essas bobagens... Uma descrição fiel seria um equívoco, deixo vocês com as pistas desse velho senhor que por uma fração de segundos cruzou meu caminho esses dias na rua. E como reclamava....

Entrei numa paranoia de tentar entender como uma pessoa que reclama tanto da vida (em tão poucos segundos), pode reclamar das pessoas que reclamam?! Eu sei, confuso, desculpa, mas foi isso. Segui meu caminho fazendo promessas aos céus que quando envelhecer não terei azedume desse nível nas veias.

Ainda podia ouvir a voz alta do velho senhor enquanto eu atravessava a avenida. Como reclamava de quem reclama... Achei graça. Fui percebido pelos outros, me senti culpado: não podia rir da situação daquele homem? Está certo, o mundo anda muito sério.

Voltei para dentro da timidez que protege e senti pena dele. Vai saber o que ele passa ou passou para estar reclamando tanto por aí (de quem reclama)?! É, vai saber... Resolvi não sentir nada mais. Ajustei os ombros, estava chegando em casa, o barulho atordoante da minha rua me desconectou. Entrei no elevador com a vizinha mal educada do 10º andar, fui ouvindo os lamentos rotineiros até a porta se abrir e eu ser salvo; desci, tive pena daquela caixa entediante que sobe e desce o dia todo. 

Cansei de pensar e entrei em casa reclamando para as paredes desse mundo louco que faço parte. Minha pimenta já mais morta do que viva (apesar de estar apenas uma semana comigo) nem me dava ouvidos... Fui para o banho reclamando desse povo que só sabe reclamar de quem reclama.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O pulso ainda pulsa.

Quanta coisa tem acontecido no nosso país nesses últimos meses: Povo nas ruas, Copa das Confederações, assassinatos bizarros, políticos fazendo o povo de trouxa, um vendaval de brasilidade. Mas será isso tudo novo, ou só um pouco mais do mesmo?

Essa é uma pergunta que me tenho feito desde que fomos para as ruas reivindicar sobre o preço das passagens, o absurdo do dinheiro gasto nos estádios e mais os infinitos motivos que temos para lutar. Acho que houve um cansaço geral. Como já vou me encaminhando para os 30 anos (isso não é assunto para se tratar agora, só para dar uma base temporal), percebo muito que passei por uma geração muito acomodada, de filhos de (aí sim) lutadores contra uma ditadura militar muito violenta. Essa minha reflexão não me tira da responsabilidade não - antes que alguém já venha me acusar, reconheço minhas dívidas. Mas sim, passei por uma adolescência de uma geração acomodada, deslumbrada com o começo desse mundo (encantado?) cibernético, apostando na democracia como mero resultado e fórmula pronta de sucesso.

Agora o jogo virou, me parece. Percebo (e o fato de estar na universidade convivendo com colegas mais novos me acrescentou esse olhar) que os jovens cansaram dessa brincadeira de NO VOTO QUE A GENTE MELHORA O PAÍS. Estamos vendo há tempos que não é por aí... O movimento de sair de casa para ocupar as ruas, para reivindicar o mínimo de compromisso dos representantes políticos, está vivo e presente nessa rapaziada que encarou acabar com o faz de conta que esses políticos se - e nos - meteram. Temos a felicidade de acompanhar bem de perto esse processo, mesmo que ainda sem entender muito bem o que e para onde vamos. Mas acordamos(?).


(Povo nas rua - centro do Rio - Imagem retirada do site: http://goo.gl/W3B4iv)

Relatar um processo enquanto ele acontece é das grandes dificuldades e das enormes armadilhas que podemos entrar. Mas vou me arriscando... Percebo que as esferas de poder andam receosas com os rumos que elas até então davam às políticas, mas que esse povo agora cismou (já era tempo) de tomar conhecimento e de questionar tudo. Os quatro poderes - acrescento a grande imprensa (assim como fazem alguns autores, e não sei precisar quem foi o primeiro a utilizar esse conceito) - estão pisando em ovos sem saber muito bem onde, ou em quem andam pisando.

Essa reflexão me traz uma curiosidade sobre o processo eleitoral que está por vir no final do ano que vem. Arrisco-me (fique à vontade para discordar) a dizer que a base de todo nosso questionamento está na forma e na estrutura do nosso fazer política. Penso que refletir sobre essa engrenagem é o fundamental pilar para mudarmos de fato alguma coisa no Brasil. Nossa construção política é engessada, com os três poderes já cheios de um ranço de alianças para governar, tendo a grande mídia como mediadora e definidora de rumos (através das concessões midiáticas que, na verdade, são tema para outra hora), conceitos e tendências.

Vivemos um momento único de reflexão e de uma oportunidade singular de vermos algo mudar nesse cenário político. Não acredito mais nas legendas políticas e acredito cada vez menos no nosso presidencialismo tupiniquim (onde, para se governar é preciso fazer aliança com o PMDB, por exemplo - coisa boa não pode sair). Também não tenho habilidade, muito menos pretensão de apontar para um caminho mais correto e eficiente para mudarmos o jogo. Hoje, na realidade, estou apostando muito mais nas pequenas ações e nos pequenos movimentos que partem de atitudes nas relações cotidianas. Não adianta irmos para as ruas protestar por honestidade e ética, se não somos capazes de cumprimentar o porteiro do prédio, de ceder o lugar no ônibus para uma senhora de idade, de agir com honestidade sem querer levar vantagem e ser o malandro da história... Fica parecendo um pensamento pueril, meio piegas, mas acredito que nossa retomada de um país digno e honesto na política - independente do formato que ela tiver - começa com os cidadãos que formamos e que serão representantes no futuro.

Posso ter me tornado num homem utópico e até certo ponto ingênuo depois desses movimentos nas ruas, mas confesso que eles me resgataram da total descrença sobre o futuro político do nosso país. O que virá pela frente só o tempo dirá, mas meu otimismo ganhou sobrevida e saiu da UTI, espero que os corações não parem de bater em cada peito de quem ainda acredita.

Ah, para não deixar passar: 

#FORACABRAL

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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Operação Fim do Mundo.

Acho curioso e fico impressionado com a criatividade da Polícia Federal na hora de dar os os nomes de suas operações. Já teve Operação Satiagraha, Operação Dedo de Deus, Operação Caixa de Pandora e agora, Operação  Durkheim. Eu fico imaginando, cá com meus botões,  que deve ter um sujeito - um felizardo, no meu modo de ver - concursado pela PF só para escolher os nomes das operações. Me empolgo com os títulos e me sentiria realizado em poder dar os nomes das futuras prisões ainda não noticiadas.

Aliás, e no caminho dessa nomenclatura de farda, imagino o dia em que esse que vos escreve e futuro nomeador/das/operações/da/PF irá passar para toda a imprensa nacional que estamos em processo de finalização da Operação Fim do Mundo (OFDM). Nela, caros leitores/escondidos, estará contida todo esforço de nosso braço de segurança pública em prender todos os políticos envolvidos em algum escândalo de corrupção. As prisões, como podem imaginar, passarão aos montes dos sete dígitos e atingirão todo o território nacional.

Os meses da OFDM serão notícia em todo o globo, ocupando capas de jornais e revisas estrangeiras que noticiarão os novos tempos na política brasileira, com um ar pesado de inveja. A partir desse momento, a máquina governamental começará a funcionar de forma decente, pois tanto a saúde, quanto a educação e a previdência (entre outras pastas) não serão recinto de políticos ladrões. O país viverá um novo tempo, os royalties não terão tanta relevância no orçamento, e a educação chegará a todos.

(Imagem retirada do site: http://migre.me/c5voU)

Esse sonho tão pueril, quase uma redação de criança recém-alfabetizada na escola, está anos luz de distância de nossa realidade. O nome não poderia ser outro e o fato em si é que, se fosse verdade, a OFDM seria um prenuncio de que realmente as coisas estão chegando ao seu final. Pois, acreditar em políticos brasileiros que não roubam (existem as exceções?) é quase um discurso inocente e ingênuo. Mas a futura OFDM (se fosse escolhida pela FIFA teria um nome ainda mais absurdo, como o do FULECO, mascote da COPA de 2014) parece desbravar um novo tempo, ou seria um prenúncio de que realmente o mundo está acabando?

Já que tem tanta gente afirmando que nosso planeta não passa desse ano, seria muito mais interessante ver os asteroides colidindo contra a Terra e nos obrigando a morar ao lado dos simpáticos dinossauros, com a bandalha dos políticos atrás das grades. Todos iríamos morrer mesmo, mas ao menos sairíamos de cena com a sensação de justiça. Viva a OFDM: O Fim Da Mediocridade dos nossos representantes!

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segunda-feira, 9 de abril de 2012

Viajando com as palavras...

O que posso escrever no meio de tantos olhares? Sou observado como um ator no centro de um palco, como um artilheiro na frente do gol. Mas prefiro o papel de observador, é mais simples, menos possuidor de atributos, de responsabilidades. Mas é preciso enfrentar esse outro papel, saber entender e olhar de frente para as fortes luzes que saem dos refletores. Me encanto com os olhares atentos em minha direção, navego nesses rostos desconhecidos que disfarçam a atenção. Viajo pelas mentes inquietas, diferentes, infinitas...

Tento entender a organização espacial que estou inserido, tudo propício a esse encontro, uniformemente disposto, cercado por discretos objetos que nos delimitam. 

Alguns se perdem no emaranhado eletrônico que hoje nos consome - nem piscam. Outros, mais avessos, se rendem a velhas páginas de jornais e a folhas de livros.

Todos me observam...

Como se a cada palavra que vai sendo desvendada fosse resultado dessa interação silenciosa, velada.

A agonia me vence, tento apagar as luzes e voltar para a multidão, para o invisível, mas agora é tarde.

Duas senhoras parecem se aproximar, meu olhar disfarça querendo desviá-las. Elas parecem perceber e sentam na mesa ao lado.

Uns tiram foto, outros pegam pesadas malas, outros almoçam calados: todos me observam...

Aqui é onde há encontros, onde despedidas ferem corações, onde sonhos são colocados em prática, onde se dá o primeiro passo.

Aqui é o encontro do passeio com o trabalho, da família e dos amigos. Daqui é de onde o Brasil se distribui e se redistribui...

Aqui é a rodoviária, mais especificamente a praça de alimentação da rodoviária. E esse que vos escreve é mais um viajante, das estradas e das palavras.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A arte de seduzir - Frei Beto.

Hoje peço licença aos amigos escondidos nesse blog para publicar um texto do Frei Beto, escritor e filósofo sábio em suas reflexões. O texto que os amigos irão ler foi publicado no jornal O GLOBO, domingo, dia 20/02/2011. Uma ótima análise sobre nossa sociedade nos dias atuais. Deixem seus comentários e deliciem-se com esse texto.

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A arte de seduzir - Frei Betto


Toda ditadura é megalômana. E a que governou o Brasil sob botas e fuzis, de 1964 a 1985, não foi diferente. A construção da rodovia Transamazônica simboliza a arrogância do regime militar.

Rasgou-se a selva de leste a oeste. Abriu-se a estrada em paralelo a caudalosas vias fluviais. Em vez de aprimorar o sistema de navegação pelo Rio Amazonas e seus afluentes, a ditadura preferiu obrigar a floresta a ajoelhar-se a seus pés. Possantes máquinas puseram abaixo árvores milenares encorpadas de madeiras nobres, destruíram ecossistemas preciosos, alteraram o equilíbrio ecológico da região.

Tudo em nome de uma palavra tão propalada e, no entanto, vazia de significado: desenvolvimento. Leia-se: exploração predatória da maior floresta tropical do mundo, aberta à voracidade de mineradoras, madeireiras e, sobretudo, do latifúndio predador, quase sempre movido a trabalho escravo.

“No meio do caminho havia uma pedra”, repetiria Drummond. Povos indígenas. Como impedir que oferecessem resistência? Simples: através da arte de seduzir. A Funai ergueu tapini (cabanas de folhas). Dentro, utensílios de caça e cozinha, ferramentas etc. Os índios, encantados com os objetos, acolhiam gentilmente os caraspálidas. E ingenuamente eram cooptados pelas relações mercantilistas. Em troca de bugigangas perdiam saúde, terras, liberdade e vida.

Detalhe: o mato, não o gato, comeu a Transamazônica, fonte de riqueza e poder de umas tantas empreiteiras.

Hoje, os índios somos todos nós. Os tapini, os shoppings, a publicidade, as veneráveis bugigangas que nos agregam valor. O inumano imprime sentido ao humano, como faziam os deuses de ouro denunciados pelos profetas bíblicos: tinham boca, mas não falavam; olhos, mas não viam; ouvidos, mas não escutavam; pés, mas não andavam...

Estamos todos somos sob o efeito hipnótico do consumismo. Não importa se o produto é frágil ou de má qualidade. Seu design nos cativa. Sua publicidade nos faz acreditar que estamos comprando a oitava maravilha do mundo! E, ingenuamente, que se trata de um produto durável, mesmo conscientes de que o capitalismo não se importa com o direito do consumidor, e sim com a margem de lucro do produtor.

Como se livrar do labirinto consumista que, na verdade, se consuma nos consumindo? Não vejo outra porta de saída fora da espiritualidade, somada a uma nova visão do mundo. Sem espiritualidade corremos o risco — sobretudo os mais jovens — de dar importância àquilo que não tem. Imbuídos da baixa autoestima que nos incute a publicidade (“você não é ninguém porque não possui este carro, não veste esta roupa, não faz esta viagem...”), encaramos a mercadoria como algo que nos agrega valor. Não basta a camisa, a bolsa ou o tênis. Têm que ser de grife, com a etiqueta exibida do lado de fora. Assim, todos à nossa volta haverão de reconhecer o nosso status. E quiçá invejar-nos. E aquele ser humano que, ao lado, carece de produtos refinados, é visto como não tendo nenhuma importância. Pois não se enquadra no atual princípio pós-cartesiano: “Consumo, logo existo.”

É espiritualizada toda pessoa cujo sentido de vida deita raízes em sua subjetividade e cujas opções são movidas por ideais altruístas. Ela não faz do que possui — conta bancária, títulos, casa, carro etc. — seu fator de autoestima. Sabe que tem valor em si, que não é nutrido pela posse de bens, e sim por sua capacidade de fazer o bem aos outros. Sua autoestima se funda na generosidade, solidariedade e compaixão. Ela é feliz porque sabe fazer outras pessoas felizes.

O mercado tudo oferece. Todos os seus produtos nos chegam embrulhados em papel de presente: se compramos este carro, seremos felizes; se bebemos aquela cerveja, nos sentiremos alegres; se adquirimos tal roupa, ficaremos joviais. O único bem que o mercado jamais oferta é justamente este que mais buscamos: a felicidade. No máximo, o mercado tenta nos convencer de que a felicidade é o resultado da soma de prazeres

Ora, a felicidade é um bem do espírito, jamais dos sentidos, da cobiça ou da arrogância. É feliz quem ousa destampar o próprio ego e conectar-se com o Transcendente, o próximo e a natureza. Esse irromper para fora de si mesmo tem nome: amor. E se manifesta nas dimensões pessoal, no dar de si ao outro, e social, no empenho de construir um mundo melhor.

FREI BETTO é escritor.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

De Plástico ou de verdade?

Hoje resolvi republicar um texto ESCONDIDO aqui em julho de 2010. Para aqueles que não tiveram a oportunidade de ler, espero que gostem! Aí vai:

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As vezes me sinto empoeirado, como uma planta de plástico invisível na mesa de jantar. Preciso me transformar em natureza verdadeira, receber água que garantirá a vida, ganhar cor, respirar ares de um novo viver.

A vida da planta é curta, um rápido tiro de conseqüências belas. Afinal, de que adianta viver muito se num breve existir ela exala perfume e inspira amores?! Prefere manter-se breve, mas intensa.

Plastificá-la significaria eternizá-la na mediocridade, transformá-la num infinito sem vida nem cheiro, ela não escolheria esse caminho.

Nesse mesmo devaneio, me questiono sobre esse louco dia-a-dia que nos metemos. Enlouquecemos na rotina enfadonha, tudo em nome de alguns reais que garantirão a sobrevivência. Somamos dívidas, somamos bens, sonhamos com luxos imaginativamente perfeitos. Mas esquecemos de momentos fundamentais: Assim como as plantas, precisamos criar raízes para sobreviver por mais tempo, para nos solidificar no terreno que pisamos, nas relações que mantemos e até nos sonhos que sonhamos.

Só que a raiz não fica visível. Apesar de fundamental, ela está enterrada, colocada sob a terra, escondida dos olhos dos outros. Assim é nossa vida, devemos nos preocupar com o que vai além do olho alheio, além do julgamento pela aparência física, que um dia envelhecerá e será só marca do tempo. O mais importante, ou melhor, o mais substancial está enraizado, invisível aos  olhos. Mas essa invisibilidade é o que define nossos valores, é a nossa impressão digital, o que nos encanta e nos faz ser motivo de encanto pelos outros.

Admirar alguém, ou uma planta, por exemplo, é isso. É olhar aquela pessoa e perceber o que vem além do que os olhos alcançam, é se encantar por uma beleza escondida naquele interior, é não ter uma explicação por  tamanha admiração, mas somente senti-la. Amizade é isso, amor verdadeiro também.

Afinal, quantos sentidos não são aflorados nos momentos em que estamos com a(s) pessoa(s) especial(is)? E, além daquela flor que enfeita o jardim, que recebe fleches de várias máquinas fotográficas, há outra ao lado (conseguem ver?). Essa última é muito menos exuberante, muito mais defeituosa, muito mais simples; mas, para alguns ou para alguém, ela será motivo de encanto, receberá o fleche mais importante e se transformará de um simples adereço de plástico, numa maravilhosa flor inspiradora de um grande buquê.


quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

SOS TERESÓPOLIS.

Anestesiado, olhos arregalados, cabisbaixo, cansado, triste, com medo, mas lutando... Parece um cenário perfeito de um personagem de filme, mas trata-se do semblante da população de Teresópolis depois dessa tragédia que atingiu a cidade. 

Fomos surpreendidos pela intensidade das chuvas na madrugada de terça-feira, fomos vítimas de uma força descomunal da natureza e de uma força de menos dos homens detentores do poder, nossos políticos. Agora todos choram, todos lamentam e tentam encontrar respostas e forças para reagir. 

A solidariedade impressiona, a união de pessoas de várias classes socias separando alimentos, separando roupas, brinquedos, artigos de primeira necessidade; separando dor e tentando encontrar uma fórmula de trazer um pouco de recomeço.

Ontem me arrepiei, tive que parar para respirar depois que vi uma criança chorando porque queria voltar para casa e a mãe tentava acalma-la: - Meu filho, não temos mais casa. Vamos tomar um banho e dormir no abrigo. Nossa, eu tenho casa, eu tenho tudo e sou impotente. Por mais que erga as mangas, por mais que ajude de todas as formas a impotência é minha, o sentimento de culpa compartilho com os responsáveis.

Conforta mesmo, e chega a rasgar um sorriso no meu rosto é ver uma senhora, que mesmo desabrigada, e com dificuldade de se levantar enquanto toma um cafezinho, me responde na maior doçura: - Esse cafezinho está ótimo. - Essa noite a senhora terá um sono de paz, né? - perguntei e ela me respondeu, com um sorriso de arrepiar: - Com a graça de Deus, meu filho, com a graça de Deus... - segurei o choro e sorri pra ela, apaixonei-me por ela, na verdade. Não sei seu nome, seu bairro, sua história de dificuldade, mas o que aprendi nesses minutos de conversa levarei para sempre comigo...

Dois meninos, um de 4 anos e um de 6 chegaram acompanhados do pai me pedindo umas roupas para eles colocarem depois do banho no abrigo. O mais novo, sorridente demais, estava pelado e se divertia com a brincadeira do povo. O baixinho de 6 anos, chamado Lucas, me perguntou: - Tio, não tem uma camisa do Flamengo não? Sorri pela espontaneidade, lembrei das minhas várias camisas rubro-negras no armário, mas ali não tinha nenhuma. Conseguimos uma do Brasil, a 10 do Ronaldinho. Falei: - Viu, não tem do Flamengo, mas tem a do novo craque do mengão. Ele saiu todo bobo em direção ao banheiro, de mãos dada com o irmão peladão...

Esses momentos são fundamentais para colocarmos nossos pés no chão, vermos que perdemos muito tempo dando valor a coisas não muito importantes, preocupados em consumir, em trocar de celular, em comprar Tv de plasma, em comprar e comprar....Mas a vida é tão simples, o sorriso é tão barato, é tão sincero e ensina tanto... Não precisamos abrir mão de boas coisas da vida, de não usufruir dos confortos dignos do suor do trabalho; mas isso é pequeno, isso se perde, isso a chuva leva. Já os sentimentos, os laços, as amizades e o sorriso não há catástrofe que abale. Ontem tentei ajudar, hoje fui lá outra vez, mas o maior beneficiado fui eu. Guardo para mim o sorriso daquela senhora e acredito demais na solidariedade do ser humano. Teresópolis precisa de ajuda - e nós também.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Uma noite a observar....

Já falou tantas vezes, já ouviu tantas palavras e ainda é um ser em construção. Já somou bens, amores, dívidas, realizações; mas corre para buscar o novo. Novo?

Já respirou ares de montanha, de praia, tremeu de frio, ensopou no verão, mas ainda guarda energia para um tempo que está por vir.

A música preferida já tocou, o melhor filme já foi visto só que não cansa de sonhar com a melodia pessoal, o acorde no tom perfeito.

Enquanto houver essas conquistas a serem buscadas, enquanto traçar na mente um caminho novo a ser percorrido, esse senhor a minha frente não se dará por vencido. Ele se encontra aqui, imaginariamente a minha frente, sentado a duas fileiras de poltronas, enquanto a barca rasga a Baía de Guanabara.

O vento que lhe escorre pela face é denso, quase perceptível perto dessa invisível brisa que me vem espantar o calor. A natureza é sábia, sabe como tratar os mais velhos...

A barca chega a seu destino, ele demora a levantar-se, parece querer aproveitar cada minuto, cada fração de segundo que a vida lhe proporciona. Invejo aquela calmaria, tento interiorizá-la, mas ela não é minha, ainda não faz parte do meu repertório...

Passo pelo senhor e desço as escadas apressado. Antes, porém, olho pra trás e sou recebido com um sorriso. Ele parece ler meus pensamentos. Rio constrangido e sigo meu caminho.

Me perco na loucura da multidão da cidade grande; me acho na calmaria do papel, da caneta, do mar - e eu.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

De plástico ou de verdade?

As vezes me sinto empoeirado, como uma planta de plástico invisível na mesa de jantar. Preciso me transformar em natureza verdadeira, receber água que garantirá a vida, ganhar cor, respirar ares de um novo viver.

A vida da planta é curta, um rápido tiro de conseqüências belas. Afinal, de que adianta viver muito se num breve existir ela exala perfume e inspira amores?! Prefere manter-se breve, mas intensa.

Plastificá-la significaria eternizá-la na mediocridade, transformá-la num infinito sem vida nem cheiro, ela não escolheria esse caminho.

Nesse mesmo devaneio, me questiono sobre esse louco dia-a-dia que nos metemos. Enlouquecemos na rotina enfadonha, tudo em nome de alguns reais que garantirão a sobrevivência. Somamos dívidas, somamos bens, sonhamos com luxos imaginativamente perfeitos. Mas esquecemos de momentos fundamentais: Assim como as plantas, precisamos criar raízes para sobreviver por mais tempo, para nos solidificar no terreno que pisamos, nas relações que mantemos e até nos sonhos que sonhamos.

Só que a raiz não fica visível. Apesar de fundamental, ela está enterrada, colocada sob a terra, escondida dos olhos dos outros. Assim é nossa vida, devemos nos preocupar com o que vai além do olho alheio, além do julgamento pela aparência física, que um dia envelhecerá e será só marca do tempo. O mais importante, ou melhor, o mais substancial está enraizado, invisível aos  olhos. Mas essa invisibilidade é o que define nossos valores, é a nossa impressão digital, o que nos encanta e nos faz ser motivo de encanto pelos outros.

Admirar alguém, ou uma planta, por exemplo, é isso. É olhar aquela pessoa e perceber o que vem além do que os olhos alcançam, é se encantar por uma beleza escondida naquele interior, é não ter uma explicação por  tamanha admiração, mas somente senti-la. Amizade é isso, amor verdadeiro também.

Afinal, quantos sentidos não são aflorados nos momentos em que estamos com a(s) pessoa(s) especial(is)? E, além daquela flor que enfeita o jardim, que recebe fleches de várias máquinas fotográficas, há outra ao lado (conseguem ver?). Essa última é muito menos exuberante, muito mais defeituosa, muito mais simples; mas, para alguns ou para alguém, ela será motivo de encanto, receberá o fleche mais importante e se transformará de um simples adereço de plástico, numa maravilhosa flor inspiradora de um grande buquê.

(Imagem retirada do site: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhluEsyoSjAOSxjkctk6sZ6XxAGVwX4yfqM_XoE47VbJax29jGD4gSR0PYvDIJPYkZ_1PatiKn0i1Ehs5CFxTshq_55g0ov9pZA78Mfu6sfGn2GpSCzB3FfbvYWF2RIeLwjT-OPbYzj0txJ/s400/flor+voa.jpg)

domingo, 30 de maio de 2010

Chapinha na mochila.

É amigos, não estranhem o título do post de hoje, é isso mesmo que vocês leram: Chapinha na mochila. 

Os anos vão passando, vamos envelhecendo e ficamos, cada dia mais, surpresos com as novidades da molecada. Outro dia eu voltava para minha casa do cursinho, de ônibus e, para variar e pelo tenso horário, o ônibus estava lotado de crianças indo para suas escolas. Fiquei ali na minha, sentado no fundão, mas só prestando atenção na conversa de duas meninas que aparentavam ter, no máximo, quinze anos. Uma delas, a mais bonitinha - mas bem metidinha (desculpem o pré-conceito, mas não consigo definir de outra maneira) - portava uma mochila enorme, quase do tamanho dela, e socada de objetos que (imaginei) fossem material de escola. 

Até aí tudo normal, papos de criança mesmo, coisas sobre os meninos da sala, sobre o celular novo..., até que a figurinha brada com todo pulmão: - Trouxe minha chapinha na mochila. Vou aproveitar que a gente vai chegar um pouco mais cedo para arrumar o cabelo no banheiro da escola.
- O que? - perguntei para mim mesmo. Fiquei assustado com o desenrolar da conversa: As duas ali, na maior naturalidade falando da esperteza de uma estar portando a tão sonhada chapinha de cabelo. Como as coisas estão mudadas!!

Tentei puxar na minha memória o tempo que eu tinha quinze anos. Puxa, minha vida se restringia ao colégio, muito futebol e umas (não muitas) paqueradas na escola. Até as meninas da minha sala, já se assanhando pela prenúncio de uma adolescência, não tinham aquele comportamento tão fútil, tão sem conteúdo, tão vazio.

Tudo bem, uns podem me chamar de velho, de conservador e até de preconceituoso, mas, para mim, não é algo natural uma criança de quinze anos levar chapinha para a escola. Vejam, caros amigos, como os valores estão distorcidos! Que adulto se tornará essa menina? Que importância ela dará a sua família, seu trabalho, seus amigos? Será ela uma vítima do nosso mundo cego pelo consumo, onde o que serve e quem serve é aquele que pode ter as coisas, ou parecer ter as coisas? 

Essas perguntas invadiram minha mente quando desci no meu ponto. Olhei com certa pena aquela menina indo embora dentro do ônibus. Fiquei pensando nos pais dela, no que ela tem, de fato como algo a ser valorizado na vida. Será exagero meu, meus caros?

Tive muita vontade de conversar com ela, perguntar o que de fato ela acha relevante? Qual a escala de importância em ter um celular de ponta, e cultivar uma amizade verdadeira?! Mas, claro, ainda não cheguei nesse estágio de insanidade. Fiquei assustado, confesso! As coisas materiais e os relacionamentos descartáveis estão tomando lugar de laços de verdade. Tudo se resume a nossa (horrível) lógica do consumo: - Compramos o aparelho mais moderno para sermos reconhecidos como parte de um grupo e utilizamos aquele objeto até que ele perca seu status. Em seguida, descartamos o aparelho substituindo-o por outro. 

Essa é a lógica do consumo! O pior, no entanto, é quando essa lógica começa a valer também para as relações pessoais: - Utilizamos (as vezes de forma inconsciente) a pessoa (ou grupo de pessoas) até achar outra (outras) mais interessante(s), descartamos a anterior e entramos novamente nesse triste ciclo de relações superficiais. E assim vamos descartando, não só os relacionamentos, como também nossas próprias vidas. E experiências verdadeiras e marcantes deixam de ser vividas, tudo em nome dessa futilidade contagiante.

(Imagem retirada do site: http://www.jjcabeleireiros.com.br/uploaded_images/chapinha-cabelo-taiff-760987.jpg)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

"Há Momentos".

Abrindo alas para Clarice Lispector... Vejam que belo texto:

Há momentos

“Há momentos na vida em que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar esta pessoa de nossos sonhos e abraçá-la. Sonhe com aquilo que você quiser. Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida e nela só se tem uma chance de fazer aquilo que se quer. Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana. E esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não têm as melhores coisas. Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram. Para aqueles que se machucam. Para aqueles que buscam e tentam sempre. E para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas. O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido. Você só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado. A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade. A vida não é de se brincar porque um belo dia se morre".

Bela reflexão, não?


(Texto retirado do blog da Grabiella: http://gabriella-beth-invitti.blogspot.com/)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Mundo virtual X Mundo real.

Vejo o orkut como uma ferramenta de grandes proporções entre os brasileiros. O que acontece ali é imediatamente espalhado pelos pares, numa velocidade impressionante. Por outro lado, vejo esse mesmo meio como uma forma desesperada de ser percebido pela sociedade. Explico: As constantes atualizações, as inúmeras ferramentas que fomentam o atual momento da pessoa - em relação a relacionamento, trabalho, sentimento do dia, fotos em eventos - são para mim como um grito, como um acenar de mãos acompanhado de: “Ei todos que fazem parte da minha rede, vejam, não estou mais casado, ou não estou mais trabalhando naquela empresa, ou, fui para Cabo Frio no carnaval, ou ainda, vejam minhas novas comunidades, leiam as entrelinhas e perceberão o que estou sentindo e querendo da vida". Curioso isso, porque é através dessas comunidades que as pessoas esperam ser entendidas - lidas - pelas demais.

Quando se vai a algum evento de grandes proporções, como numa corrida de fórmula 1 por exemplo, o sujeito chega em casa e já procura a comunidade: “Fórmula 1 no Brasil, eu fui!”. Quando a pessoa se interessa por outra, mas não quer ser direta nem indiscreta, procura logo uma daquelas comunidades: “O que tem que ser meu, será meu”. Todos os amigos da rede olham aquela comunidade e podem não entender nada, mas o recado foi dado e, claro, só pode ser para uma pessoa daquele ciclo social.

É interessante essa construção de laços virtuais. Mantemos nossa vida real paralela a esse mundo da internet. Só que, e a real importância desse mundo on-line? Que tipo de relação se é construída de fato nesse universo? Elas substituem os reais encontros, as histórias da relações entre as pessoas? E as durezas e as dificuldades da vida, podem ser resolvidas nesse universo sem profundidade da internet?

Eu tenho minha resposta para essas perguntas. Acredito que longe da máquina, nas ruas e nas relações interpessoais, o desafio é muito maior. Não há muito espaço para relacionamentos com o mínimo de interligação, não se tem como “deletar” um problema desligando o computador ou bloqueando alguém de sua rede. Os problemas no mundo real são obrigatoriamente encarados de frente (querendo ou não), cada um a sua maneira. Por outro lado, as alegrias, as demonstrações de amizade e de amor são muito mais genuínas no plano real do que os formados pelos fios dos pcs. O sorriso de um grande amor, uma declaração de carinho, amizade ou confiança, valem muito mais do que fotos, textos pré-moldados, conversas superficiais e um apelo virtual do tipo: "Vejam como está minha vida, vejam minhas fotos, vejam minhas comunidades, desvendam meus pensamentos..."

Posso estar nadando contra a corrente dos jovens de hoje, mas prefiro remar sozinho para um lado que acredito do que fazer parte de um universo preestabelecido, onde tudo e todos parecem repetir gestos e atitudes, como um rebanho muito bem treinado.

E você, o que acha disso tudo? Deixe sua opinião?!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O curioso beicinho do ex-rei.

Vocês conhecem a história daquele “tiozinho” que, depois de passar anos trabalhando num mesmo cargo, se aposenta e passa - devido a inatividade - a azedar bravatas sobre o seu substituto?! Pois é, esse mesmo senhor, que por anos ficou centralizado sob as luzes do poder, apequena-se num mundo novo, onde sua fama e suas transloucadas idéias soam como vozes inauditas pelos demais. Esse ciclo de troca do poder, onde a cadeira de rei de hoje será ocupada por uma nova majestade amanhã, muitas vezes produz um instinto depressivo em quem perde a coroa e fica resmungando do novo sucesso no reinado. Não adiantam os chiliques da elite inconformado por essa troca, não adianta os que apelam por qualquer motivo para desqualificar o novo Rei, o sucesso está nas ruas, na aprovação dos súditos ao novo monarca, de uma forma simples, cristalina, daqueles que sempre sofreram com a pobreza, mas que, pelo menos agora, vêem uma saída para suas dificuldades.

O novo rei, aliás, poderia ser mais poderoso se cumprisse de fato com o que prometia em suas subidas ao palanque: falta maior investimento em educação e, principalmente, em saúde; mas, pelo menos agora as coisas estão - mesmo que vagarosamente - andando. As universidades federais percebem o investimento melhor em pesquisas científicas, com apoio de empresas estatais em projetos de suma importância para o desenvolvimento do país, abrindo espaço para o crescimento dos jovens pesquisadores. O campo diplomático brasileiro nunca foi tão valorizado, o país nunca foi tão respeitado lá fora e visto (quase) de igual para igual com grandes potências de outrora. Mas isso passa em branco em mentes cegas de quem quer enxergar aquilo que interessa. Aí não há argumentos para gastar nesse humilde blog que faça a pessoa pensar ao contrário - nem pretendo isso, na verdade. Cada um segue suas idéias. Só acho curioso é que, em grande parte das vezes, o argumento para desqualificar o atual monarca seja o escracho de um sujeito simples, oriundo de um trabalho braçal, mas que chegou ao poder com toda limpeza que uma democracia proporciona. Isso não importa, o que vale, na verdade, é o inverso da lógica do time de futebol. Vamos a ela:

Suponhamos que um torcedor do América do Rio veja as eleições para a presidência do clube se aproximarem. Ele, como todo fanático, tem seu candidato de preferência por “n” motivos. Só que, pelo fato de ser uma eleição democrata, ele percebe a derrota do seu candidato e, mais que isso, a vitória do sujeito que ele menos gostaria. Pronto, está tudo acabado. Ele não mais torcerá para seu clube, deixará de ir aos estádios, e mais, torcerá para que o América permaneça no submundo do futebol brasileiro, certo? Claro que não, independente das questões políticas, ele será fiel ao seu princípio de ligação ao clube, torcendo para o sucesso daquela nova gestão, mesmo que para isso, lá na frente e de volta a elite do futebol nacional ela reconheça: É, o presidente fez um ótimo trabalho e merece continuar no cargo!

Tracei esse paralelo mesmo percebendo que os sentimentos entre política e futebol, apesar de algumas semelhanças, são de intensidades diferentes. Até confesso, não sou hipócrita, que quando um candidato está no poder, contra meu gosto pessoal, procuro muito mais os defeitos do que reconhecer as qualidades, acredito, inclusive, que isso seja natural do ser humano. Só não entendo, caros amigos, como os argumentos de pessoas esclarecidas, vão ao limbo para desqualificar o rei e seus pares. A falta de razão se mistura com um sentimento infantil de desqualificar por desqualificar. Argumentos completamente irracionais sobem ao tabuleiro das relações cotidianas e até assustam pelas palavras impensadas. Coisas do tipo: “metalúrgico no poder?! Argh...”; “fizeram filme para homenageá-lo, já ta querendo eleger a Dilma”; “nove dedos em reunião da ONU, que vergonha pro Brasil”; outro que ouvi de um senador do DEM, no programa “Pânico, da Rede TV”: “esse senhor faz aniversário?!...risos de deboche”; ou, “ele podia morrer de gripe suína, ou ser assassinado no carro aberto“... Esse desqualificar por desqualificar é até engraçado quando vem de pessoas humildes, sem instrução, que falam até sem maldade certas coisas, até por se sentirem excluídas da sociedade e saberem que ninguém ouvirá (ou levará a sério) aquelas palavras; mas têm pessoas que você até se assusta quando ouve coisas desse tipo...

E por fim, até para encerrar esse já longo texto, me arrepio com o ex-presidente FHC, sobre o governo atual. Ele tem todo o direito de criticar e até certa razão em alguns pontos de vista, mas é de um rancor tremendo que chega a dar dó. A última coluna do ex-presidente que li no O GLOBO de domingo, foi de uma mágoa daquela criança que era a mais querida da turma, mas vê entrar na sala um novo colega que ofusca todo seu sucesso. Fica na minha idéia, um senhor que governou o país por oito anos, escrevendo artigos com um beicinho inconsolável, dentro de seu amplo apartamento em Paris, dando goles em vinhos que nunca beberei, soluçando em palavras estrangeiras, inconformado com os números de aprovação do sucessor e tentando desqualificar o atual governo a qualquer custo. Um papelão para um senhor que poderia, pelo menos, manter uma classe aparente. Como diz Paulo Henrique Amorim em seu blog: “A inveja tem a vantagem de corroer o invejoso por dentro.”

Comente a vontade e fique sempre com sua opinião.

sábado, 12 de setembro de 2009

Pitbul no caminho.

Não sei se um pitbul é mais assustador com cara ao vento, e aqueles dentes prontos para o ataque, ou com uma focinheira bem tramada, daquelas típicas de filmes de terror, capaz de colocar medo em qualquer grande ser que se julga o mais macho.

Hoje eu descia calmamente pela rua de minha casa quando deparei com uma coisa - um cão, vamos lá - todo armado com sua terrível focinheira. Olha, a vontade era de falar para o dono: - Não tem como tirar esse troço da cara da criatura não? Mas não tive coragem e fiquei com medo dele se achar o dono do cachorro mais bravo do mundo, ou mandar-me para um lugar não muito aprazível.

Pois bem, continuei andando sem conseguir me desligar daquele animal. E o dono lá, de chinelo, sem camisa, como um simples mortal passeando com o totó de estimação de sua filinha. Deus me livre! Já pensou a criança brincando com o simpático bicho?! Também acho, é melhor nem pensar.

Então, como sempre, fiquei com aquela cena na mente e com o paradoxo que se formava... Como pode um animal usar um objeto para ficar menos violento, mais seguro para os outros cidadãos, mas, ao mesmo tempo, ter sua monstruosidade multiplicada por 20?! Não consigo entender, só pode ser coisa de um canto do mundo chamado Brasil (Será que nos outros países também é assim?). Mas não parei por aí: Para que uma empresa que fabrica focinheira (existe isso??) precisa caprichar no design assustador? Não faz sentido, ou estou passado demais para o mundo que se apresenta?

É a mesma coisa, concluo com toda minha ignorância, que uma empresa de capacetes fazer um design de um alvo com os seguintes dizeres: "Rubinho, asfalto, outros objetos e balas de plantão: mirem aqui!"



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