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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Analisando com o olhar de hoje.

Estava lendo um conto de um sujeito chamado Carlos Drummond de Andrade, conhecem? Sensacional esse mineiro de Itabira. O texto dele não se lê, se escorrega. Digo isso porque a leitura é muito fácil, flui como um rio descendo seu curso natural...

Mas uma coisa ficou latejando na minha cabeça: o tal do nosso tempo. Impressionante, com o passar dos anos, dos hábitos e dos costumes, coisas que eram comuns antigamente viram absurdos hoje em dia. Pois bem, analisemos: "...a saudade do mano muitas vezes estragava nosso banho no poço, irritava ainda mais o malogro da caça de passarinho." Pronto, se esse conto de Drummond fosse escrito hoje o grande poeta seria acusado pelos ambientalistas, o crucificariam por incentivar o extermínio de raras espécies de pássaros, um homem terrível, o pior exemplo para nossas crianças - muitos bradariam!

Mas percebam o contexto, o momento histórico que o conto "A Salvação da Alma" foi escrito. Era comum aos meninos do interior, ainda mais do interior de Minas Gerais, caçar passarinhos, criar pombos (como relatam meus tios); coisas que vistas hoje em dia causam arrepios nos teóricos de plantão. 

Fiquei divagando... se fosse hoje Drummond sofreria uma investida de um repórter com uma câmera escondida, para verificar se ele cria espécies raras em sua casa, em Itabira. Seria matéria para encerrar o 'Fantástico', da Rede Globo. Estaria nosso grande escritor fadado a passar alguns meses nas prisões brasileiras pelo incentivo ao crime ambiental. Já pensou? (Antes de criar polêmica entre os 7 leitores do ESCONDIDIN, digo logo e brevemente que sou a favor de pássaro solto no seu habitat natural. Ponto!). Mas vivendo na nossa loucura do século XXI, Drummond poderia ser acusado e alvo de críticas pra todo lado.

Mas, feliz é nosso escritor que não precisa ter seus textos analisados e julgados como crime e, ao mesmo tempo, ser obrigado a se deparar com análises contundentes e muito sérias de programas de televisão, como diversos exemplos que conhecemos muito bem - não vale nem a pena enumerá-los.

No entanto, amigos escondidos, e para mostrar que Drummond também poderia ser um senhor muito antenado com os fenômenos atuais, percebam o começo da frase citada: "...a saudade do mano muitas vezes estragava nosso banho no poço...". Pronto, muitos analistas verificariam a presença de um claro relacionamento homossexual entre esses 'manos'. E agora, mais do que em qualquer outro trecho do livro, Drummond seria absolvido, estaria apenas representando as relações tão comuns do nosso dia-a-dia.

Num pequeno trecho pinçado de uma obra grandiosa de nossa literatura podemos fazer o mesmo exercício que nossa grande mídia faz ao reproduzir uma declaração de uma figura importante. De acordo com o interesse editorial, eles moldam da forma como querem e ainda transformam trechos pouco relevantes de um grande contexto numa manchete de jornal, como no nosso exemplo que poderia ser: "EM CONTO DE DRUMMOND PROTAGONISTAS VIVEM RELAÇÃO HOMOSSEXUAL". Pronto, a manchete está criada, o jornal será vendido, mas será que é isso mesmo?

Pois bem, quem já teve a oportunidade de ler esse conto (A Salvação da Alma) sabe muito bem que o autor descreve os momentos de saudade do irmão mais novo quando o mais velho se muda de cidade para estudar. Esse é o fato, esse é o contexto, essa é a verdade. Mas quem se importa? O jornal já foi impresso, já está nas bancas com a polêmica manchete na primeira página. Cabe a Drummond desmentir e provar que aquilo que dizem não é aquilo que ele escreveu. Mas quem paga por esse erro?

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Releitura: "Precisamos Falar SObre Kevin".

Em janeiro de 2011 (ontem) o Escondidin fez três anos de vida. Depois de muitos textos, muitas reflexões e muito bate-papo com os amigos que aqui se escondem, resolvi republicar alguns textos que marcaram essa curta tragetória do simpático blog. Continuarei escrevendo texto inéditos, mas vez por outra vocês irão se deparar com textos que já fazem parte do universo Escondido. Boa (re)leitura e espero que gostem.

Hoje vamos recontar a história de um livro que me chamou muita atenção, Precisamos Falar Sobre o Kevin, publicado nesse blog no dia 31 de janeiro de 2008.

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Sinceramente, acho que nunca li um livro tão instigante, cheio de fatos que arrepiam, que surpreendem, principalmente por se tratar de uma história que de fato aconteceu.

Sei que coisas assustadoras acontecem toda hora ao redor do mundo, mas certas notícias (mesmo quando se tornam corriqueiras) não saem da nossa cabeça.

Este livro trata, basicamente, de um relato de uma mãe, Eva, que se vê acabada depois de seu filho, Kevin Khatchadourian ter entrado na escola e matado nove pessoas. É de arrepiar como esse livro é agudo. Cada página parece tirar uma máscara hipócrita da sociedade, que sempre tem respostas prontas para qualquer fato.

"Precisamos Falar Sobre o Kevin” difere justamente nisso, o relato dessa mãe atônita não se caracteriza por ser politicamente correto, com frases feitas sobre problemas familiares. Eva fala de toda sua apreensão como mãe, desde o momento que o filho nasce, sua insegurança, suas dúvidas, como a de vocação por ser mãe. Mais do que isso, ela rebate a tão divulgada “depressão pós-parto”. Não que ela não acredite que esse tipo de depressão atinja algumas mulheres logo após terem seus filhos, mas não a ela. A falta de entrosamento (se essa é a palavra mais adequada) entre ela e seu filho fica nítida desde o primeiro contato, naquele momento que o médico encosta a criança no peito da mãe, logo depois do nascimento. Nem ela, nem o bebê pareciam querer estar ali.

Se passam 16 anos até Kevin entrar para história como um dos adolescentes americanos que resolvem eliminar todos os que o deixam constrangido, o incomodam. Mas o que leva esse jovem a fazer isso, mesmo sendo de uma família privilegiada, com uma bela casa, com estrutura educacional? Justamente essa é a pergunta que Eva se faz em todo livro!

Os capítulos são divididos em cartas escritas pela mãe ao pai ausente. São história surpreendentes - a maioria triste, é verdade - com um belo trabalho de introspecção, uma busca constante de entender aonde ela, como mãe, tem culpa pelas mortes cometidas pelo filho.

Impossível não falar desse livro sem adjetivá-lo, sem deixar de contar detalhes de uma vida tão trágica. Alternamos momentos de comunhão com a mãe de Kevin, onde partilhamos todo seu sofrimento, imaginando tudo que ela passou depois daquele dia trágico; ao mesmo tempo, impossível não deixar de ver suas responsabilidades na criação dessa criança e nas mortes, indiretamente.

Quanto ao Kevin, bem, quanto a esse jovem, é impressionante como sua personalidade se formou tão cedo, como, mesmo ainda criança, não se importava com brincadeiras e divertimentos infantis; parecendo, na verdade, que já antevia seu futuro sem futuro.

Mesmo já tendo terminado de ler o livro há duas semanas, não paro de relê-lo mentalmente. As situações vão passando em minha mente, como um filme inesquecível. A crueldade do ser humano fica muito mais latente quando se conhece o que se tem por trás, o que forma essa mente tão misteriosa.

Perceberão que, apesar de tudo, uma mãe nunca deixa de amar o seu filho.

Recomendo este livro!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Páginas de papel e os sentidos.

Não há nenhuma novidade no que acabo de constatar, mas é algo que vale como reflexão, pelo menos: Agora mesmo que destilo o veneno por essas linhas, tenho - em outras abas do navegador - um jornal aberto, um site de um concurso que irei prestar, meu e-mail ansioso a espera de alguma novidade, além do twitter também logado e do msn que não para de ver novos usuários online, ocupados, ausentes... E eu aqui, no meio desse turbilhão de informações agindo como o ser mais tranquilo do mundo, concentrado que só eu...

Mas é interessante como nos adaptamos a essas novas formas de nos relacionar com as coisas e suas incansáveis novidades. Estamos sempre aptos para o novo, mesmo que para isso tenhamos que abdicar de velhos hábitos. O curioso é notar que a cada dia estamos expostos e dispostos a ocupar todos os nossos sentidos. Nesse momento, por exemplo, não paro no teclar das letras; minha vista mal pisca diante da claridade do monitor - e protegida pelos óculos; ouço o teclar das letras e a rádio CBN aberta em outra aba do navegador; só não há tempo para sentir cheiros e nem para tirar o amargor da boca. É muita coisa para uma pessoa só! Mas acredito que, aos poucos, as crianças vão nos superando nesses quesitos, o que não vem a ser uma qualidade, é verdade.

Se compararmos com as sensações que o livro proporciona(va), então... a internet e suas ferramentas são muito mais atraentes para mentes plugadas 24 horas no mundo tecnológico. O que dizer das simples folhas sem figura, que se sucedem num emaranhado de páginas de igual formato, mesmo tamanho de letra, sem um atrativo a mais, um plus que leve a outros mundo, como faz a internet - no livro nem há links para figuras, não é mesmo?

Tudo bem, os argumentos são fortes a favor do virtual, mas e se eu disser que prefiro o bom e velho amigo das páginas de papel. Crucificado serei? Pode ser, mas lá há um mundo imaginário a ser desvendado, inigualável no mundo colorido e ultra-pós-moderno do universo digital. Naquele livro com cheiro de guardado, há uma infinidade de possibilidades de uma mesma história. Cada um imagina seu personagem, cada um desenha seu cenário e imagina como o autor conseguiu pensar numa história tão bem bolada! Lá há espaço para devaneios incríveis - que esse que vos escreve tanto gosta, para uma fidelidade impossível de se encontrar nos mais criativos e atraentes sites.

Desculpem-me os que discordam dessas saudosas palavras - e fiquem à vontade para discordar, mas o que relato para vocês não é uma mágoa de quem vê seu amor envelhecendo e sendo subistituído por uma nova beldade escultural, trata-se apenas de um sentimento construído nesses um quarto de século de minha vida. Acredito no novo e na criatividade que a internet e suas ferramentas proporcionam, mas não abandono o velho estilo de inventar um mundo meu, por linhas de um outro autor. Há espaço para tudo e para todos. Fico por aqui com essas linhas digitais e volto ali para a mesa, me entregando àquele ópio de papel e linhas que precisa ser terminado de ser consumido.



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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

No ônibus inquieto.

Estou parado, dentro do ônibus, que rasga a rodovia. Mais uma viagem - curta viagem - e minha mente divaga...

Ao meu lado, um senhor não consegue ficar acordado, uma sucessão de cochilos. Na minha diagonal esquerda, um homem lê desde a partida um livro sobre Cristo...Amém!

O resto é silêncio que só é interrompido por alguns toques de celular. Bato constantemente o pé, enquanto o motorista vai tranqüilo, numa velocidade constante.

Lá fora faz um calor infernal. Orgulho-me do ar condicionado - invenção maravilhosa. Estou inquieto, por isso escrevo. Assim, concentro em mim.

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Ainda preso na poltrona do ônibus, lembrei-me da minissérie da Rede Globo, Capitu. Há alguns dias escrevi sobre Dom Casmurro (é só ler aqui no blog, "O Reencontro" publicado no dia 27/11/08) e, logo depois, descobri que fariam um especial sobre o livro. Fiquei fascinado e não pude perder. Estou adorando a maneira como adaptaram o livro para a TV, numa mistura de teatro com televisão - ótima mistura, por sinal. Os atores então, são maravilhosos. Vocês estão assistindo?

Uma frase de Dom Casmurro me chamou a atenção no seriado: “Eis aqui um que não fará grande carreira no mundo...as emoções o dominam”, fazendo referencia a Bentinho. Eu não tinha reparado nesse trecho quando li o livro, mas no seriado me marcou. A frase ficou martelando em minha mente. Carreira e emoção andando em direções opostas, fazendo forças para não se juntarem, como dois ímãs de mesmo pólo.

Eh Machado de Assis, quanta genialidade. Cada releitura uma descoberta.

(Imagem retirada do site: http://documentotupiniquim.com/wp-content/uploads/2008/02/onibus-1969.jpg)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O reencontro.

Foi depois de alguns anos. Ele estava guardado num canto de um armário da casa - nem me lembrava que ainda o tinha. Mas sua capa laranja me chamou a atenção. Olhei e procurei logo o título do livro: Dom Casmurro. Quanto tempo, senhor Machado!? - indaguei.

Lembrei-me que, quando li esse livro na escola (na verdade, vou ser muito sincero, mas nem me lembro de ter lido todo. Acho que parei na metade e complementei com um resumo da internet. Pano rápido!) achei cansativo e extremamente chato, desses que recebemos no ensino fundamental, com uma obrigatoriedade que impossibilita a criança de ter prazer em ler um livro.

Pois bem, achei que devia reler esse clássico da literatura brasileira. (Há uns cinco anos, eu reli o Memórias Póstumas de Brás Cubas, também de Machado de Assis - e adorei essa releitura, por sinal).

Folheei as páginas do clássico Dom Casmurro e foi redescobrindo Capitu e Bentinho. Quem não conhece essa dupla, que já foi, inclusive, inspiradora de protagonistas de novelas e afins (só não me pergunte quais, pois não tenho a menor afinidade com o tema)!? As histórias infantis dos dois se descobrindo como apaixonados e as sensações que Machado de Assis passa, são impressionantes. O autor tem uma capacidade de descrever uma cena e, dentro dela, prender o leitor pela forma como aborda as questões emocionais do personagem - descrevendo suas inquietações e pensamentos - que eu nunca vi igual.

Claro, trata-se de Machado de Assis. Mas me pergunto: Por que só agora pude conhecer de fato sua incomparável narrativa? Só pode ser uma questão de maturidade mesmo, pois o livro não foi modificado desde os meus tempos da escola.

Recomendo esse clássico todos, mesmo aqueles que, assim como eu, já tiveram o gostinho de ler Dom Casmurro. Releia, tenho certeza que irá descobrir um mundo literário novo. Chego a conclusão que, cada vez que andamos por caminhos já percorridos, nos deparamos com situações, fatos e objetos que sempre estiveram ali, mas fomos nós que não soubemos perceber naquele momento suas presenças. Então, amigos, não percam tempo, voltem um pouco em suas estradas, o já conhecido pode reservar surpresas inimagináveis.

(imagem retirada do site: http://www.algosobre.com.br/images/stories/assuntos/biografias/Machado%20de%20Assis.jpg)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Crime de palavra.

Escrevo por cima de palavras que foram apagadas. Elas não serviram para transmitir o que era preciso, foram eliminadas. Seus restos encontram-se enterrados nessas páginas, só vejo sombras e nada mais. Não houve testemunhas desse extermínio feito por mim e minha cúmplice, a borracha. Não há provas, nem documentos; então, não há crime.

Posso ficar tranqüilo, não serei condenado, nem apontado por famílias órfãs de suas palavras queridas. Imaginem como seria minha situação no tribunal: diversas palavras soltas acusando-me de acabar com a coesão e coerência, destruir seus parentes.

- Cadê a palavra “não”? - indagaria uma inconsolável palavra “nunca”.
- Não sei, ela sumiu do nada - eu responderia cinicamente, sendo observado atentamente pela “mentira”.

O juiz “por que” passaria por maus momentos - coitado. Meu advogado, da família dos adjetivos, destilaria argumentos a meu favor, me qualificaria ao extremo. Do outro lado, na acusação, teria que me deparar com o advogado da família dos advérbios, que tentaria modificar a opinião do juiz e dos jurados, verdadeiros verbos. Esses jurados, aliás, tentariam desvendar alguma ação, estado ou qualidade que pudessem me condenar ou livrar-me da pena.

Mas, como comentei, crime sem provas não dá em nada. Ainda mais no “Brasil”. Essa palavra grandiosa (apesar das seis letras), mas tão rica de exemplos de crimes sem punição. Por isso, posso tranqüilizar-me na cama quente. Vivemos num país democraticamente impune, para qualquer tipo de crime.

Só tenho medo, na verdade, da dona gramática, uma senhora cheia de complexidades, que amedontra seus subordinados. No quintal de dona gramática, ninguém se sobressai. Basta um escorregão e pronto, ela esfrega na cara o erro cometido. Em seu terreno nenhum delito - o menor que seja - passa impune, ela castiga mesmo. E não há hierarquia nem privilégios, basta estar vivo e se comunicando para ser surpreendido por leis que ela impõe com autoridade. Não há um que não se assuste com seu poder.

Nosso Brasil poderia aprender um pouco com essa senhora. Quem sabe não respeitaríamos um pouco mais as leis e, até mesmo, temeríamos ser desmascarados da fantasia que usamos para driblar os códigos vigentes?! Seria a linguagem e suas regras ensinando uma imensa nação a crescer.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Das páginas dos livros...Realidade e ficção.

Hoje cedo acordei com um temporal batendo na janela. Era quase um chamado para o dia, um despertador natural. Olhei assustado ao meu redor e percebi que eu não estava em casa, aquele não era o meu quarto. Pensei em chamar alguém, mas era nítido que eu estava só.


Caminhei até a janela - buscando na memória um lugar como aquele - e, entre pingos e a cerração, pude avistar um lago meio sombrio logo ali. Era uma paisagem de um filme de suspense. Fiquei ainda mais confuso.


Tentei me recordar da noite anterior. Lembrei-me de ler, antes de dormir, três contos de suspense/mistério. E foi no meu quarto, tenho certeza . Tudo estava muito estranho....


Comecei a lembrar das histórias e, uma delas, tinha, como pano-de-fundo, um lugar muito semelhante ao que eu estava.


Nesse momento, entrei numa louca espiral entre a ficção e o real. Sabia que era a minha mente que aprontara aquilo tudo, mas, como sair desse lugar?


Não me lembrava do nome nem do autor do conto, e isso era o que menos importava. Afinal, eu estava ali e precisava acha um caminho. Ensaiei um beliscão, na ânsia de descobrir se tudo não era um sonho. Mas parei, aquilo era real! E agora?


Puxei uma cadeira e sentei de frente para a janela - a chuva continuava forte. Aos poucos o desenrolar da história do conto foi surgindo na minha mente. Só que, de maneira fabulosa, os personagens e o enredo foram se apresentando lá fora, na chuva, nítidos, verdadeiros.


Tornei-me um espectador do que lera à noite. Estava na platéia assistindo uma real dramatização, a poucos metros de mim.


Olhei mais de uma vez para trás, na tentativa de encontrar alguma resposta, mas nada havia modificado. Concentrei-me na apresentação, não podia perder esse momento: a ficção se concretizando no real.


Foi fantástico acompanhar cada detalhe, as horas se passaram e eu nem me mexi mais, vidrado com o que acontecia.


Com o fim do conto, os personagens me olharam com um ar de agradecimento - pareciam ter se libertado do limite das páginas do livro. Levantei-me e, enquanto aplaudia entusiasmado, eles sumiram por entre as árvores encharcadas.


Antes de me preocupar com o futuro (minha volta ao mundo real), imaginei como seria maravilhoso assistir a um outro espetáculo assim, saído de um livro para alguns metros de mim.


Fechei os olhos e iniciei uma busca da biografia do Nelson Rodrigues, "O Anjo Pornográfico", (já tina uma fila de livros para serem dramatizados na minha frente), com ótimas passagens e excelente contextualização histórica feita por Ruy Castro.


Enquanto a chuva apertava lá fora e as personagens pareciam se aproximar do lago, acordei assustado...


Estava no meu quarto, já eram nove horas e o Sol brilhava intensamente.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Livro: Os Botões de Napoleão.

Curiosamente comecei a ler um livro que, a princípio, não tem nada a ver com o que eu gosto. Trata-se de uma obra sobre a influência de compostos químicos no decorrer da história da humanidade. São aspectos muito curiosos, que tentam relacionar essas moléculas a fatos decisivos na construção do mundo.


"Os Botões de Napoleão - As 17 moléculas que mudaram a história", esse é o nome do livro, escrito pelos químicos Penny Le Couter e Jay Burreson. (vai uma dica de um site que vende essa obra: http://www.americanas.com.br/prod/366649/BookStore?i=1#features)


Separei um trecho que achei muito interessante, que serve como ilustração para vocês conhecerem um pouco. Lá vai: (os parêntesis são intervenções minhas, ok?)
"No século XVII, os holandeses tinham muitos navios, melhores armas, muitos homens e uma política de colonização dura. Com isso, tornaram-se os senhores do comércio de especiarias. Para se consolidarem ainda mais, os (bravos) holandeses desejavam dominar o importante comércio nas ilhas Banda, atualmente parte da Indonésia (...) Usaram de toda violência possível contra a população da ilha - inclusive escravizando alguns sobreviventes para trabalharem na produção de noz-moscada (muito apreciada na época, pois servia para espantar a peste negra) (...) (Depois disso, a única ameaça que ainda existia era a dos ingleses, que haviam assinado um tratado comercial com os chefes locais).


Em 1667, após um cerco brutal, uma invasão holandesa e mais destruição de arvoredos de noz-moscada, os ingleses assinaram o Tratado de Breda, pelo o qual abriram mão de todas as suas reivindicações sobre a ilha de Run em troca de uma declaração formal dos holandeses abdicando de seus direitos à ilha de Manhattan. Nova Amsterdã converteu-se em Nova York, e os holandeses ficaram com a noz-moscada".


Esse foi o caso que mais me chamou a atenção. Fiquei imaginando como seria hoje em dia se a ilha de Manhattan ainda fosse holandesa? Como o mundo seria constituído?
Muito interessante, não?


Recomendo a vocês esse livro. Mesmo os que não gostam de química (como eu), mas que se interessam por fatos e curiosidades que determinaram o mundo como conhecemos hoje.


Boa leitura!

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Eu e o livro.

Minha relação com o livro começa antes de abri-lo. A aparência e a textura são muito importantes. Um livro bonito e com aspecto agradável torna-se mais convidativo à leitura. Mas não é só isso; o que seduz muitos leitores e a mim, particularmente, é o cheiro de suas páginas. Isso mesmo, o cheiro é essencial, como um perfume de uma bela mulher: atrativo!
Um livro cheiroso não é deixado de lado, permanece perto dos olhos e do nariz a todo momento. É uma sedução impressionante, feitiço que hipinotiza, conquista.

Como uma comida muito apreciada, que se saboreia pela visão e pelo olfato para só depois ser consumida; o livro, para ser completo, precisa ter conteúdo, envolver pelas histórias, pelos capítulo; transformar-se num companheiro finito, confidente de sonhos.

O bom livro é aquele que, quando vai chegando ao final, você começa a ler mais devagar, a devorá-lo aproveitando este último contato. E não tem jeito: quando se lê o último parágrafo, fecha-o e repousa-o no peito, tentando compreender a separação inevitável.

É o fim da história, é o fim da função daquele livro, que voltará para a estante a espera de um novo viajante sonhador.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Precisamos Falar Sobre o Kevin!


Sinceramente, acho que nunca li um livro tão instigante, cheio de fatos que arrepiam, que surpreendem - um romance com cara de realidade...


Sei que coisas assustadoras acontecem toda hora ao redor do mundo, mas certas notícias (mesmo quando se tornam corriqueiras) não saem da nossa cabeça.

Este livro trata, basicamente, de um relato de uma mãe, Eva, que se vê acabada depois de seu filho, Kevin Khatchadourian ter entrado na escola e matado nove pessoas. É de arrepiar como esse livro é agudo. Cada página parece tirar uma máscara hipócrita da sociedade, que sempre tem respostas prontas para qualquer fato.

“Precisamos Falar Sobre o Kevin” difere justamente nisso, o relato dessa mãe atônita não se caracteriza por ser politicamente correto, com frases feitas sobre problemas familiares. Eva fala de toda sua apreensão como mãe, desde o momento que o filho nasce, sua insegurança, suas dúvidas, como a de vocação por ser mãe. Mais do que isso, ela rebate a tão divulgada “depressão pós-parto”. Não que ela não acredite que esse tipo de depressão atinja algumas mulheres logo após terem seus filhos, mas não a ela. A falta de entrosamento (se essa é a palavra mais adequada) entre ela e seu filho fica nítida desde o primeiro contato, naquele momento que o médico encosta a criança no peito da mãe, logo depois do nascimento. Nem ela, nem o bebê pareciam querer estar ali.

Se passam 16 anos até Kevin entrar para história como um dos adolescentes americanos que resolvem eliminar todos os que o deixam constrangido, o incomodam. Mas o que leva esse jovem a fazer isso, mesmo sendo de uma família privilegiada, com uma bela casa, com estrutura educacional? Justamente essa é a pergunta que Eva se faz em todo livro!

Os capítulos são divididos em cartas escritas pela mãe ao pai ausente. São história surpreendentes - a maioria triste, é verdade - com um belo trabalho de introspecção, uma busca constante de entender aonde ela, como mãe, tem culpa pelas mortes cometidas pelo filho.

Impossível não falar desse livro sem adjetivá-lo, sem deixar de contar detalhes de uma vida tão trágica. Alternamos momentos de comunhão com a mãe de Kevin, onde partilhamos todo seu sofrimento, imaginando tudo que ela passou depois daquele dia trágico; ao mesmo tempo, impossível não deixar de ver suas responsabilidades na criação dessa criança e nas mortes, indiretamente.

Quanto ao Kevin, bem, quanto a esse jovem, é impressionante como sua personalidade se formou tão cedo, como, mesmo ainda criança, não se importava com brincadeiras e divertimentos infantis; parecendo, na verdade, que já antevia seu futuro sem futuro.

Mesmo já tendo terminado de ler o livro há duas semanas, não paro de relê-lo mentalmente. As situações vão passando em minha mente, como um filme inesquecível. A crueldade do ser humano fica muito mais latente quando se conhece o que se tem por trás, o que forma essa mente tão misteriosa.

Perceberão que, apesar de tudo, uma mãe nunca deixa de amar o seu filho.

Recomendo este livro!

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