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domingo, 7 de novembro de 2010

Novidades aos Noventa Anos (Isnard Horta).

Tio Isnard é um verdadeiro contador de caso, tem o dom de reunir o povo da família para ouvir suas histórias. É aquele tipo de pessoa que gosta de observar e colocar no papel as impressões. Nisso somos parecidos demais. Ele me mandou um e-mail fantástico, retratando um bate-papo na casa dos meus avós e como as novidades tecnológicas são recebidas por esses dois senhores de mais de noventa anos. Aproveitem essa prosa Isnarniana, é divertidíssima. Não deixem de comentar!


Primeiro Ato

Olhos firmes na tela onde girava o globo em aproximação constante. Costa da América do Sul. A imagem aproxima–se mais, seu rosto também: Que beleza! O mar?

Primeira parada – Milho Verde: Lindo!

Adiante, São Gonçalo, descendo até o Vau: Jequitinhonha nascendo. Enfim, Diamantina!

Então, vamos passear na rua? Vamos.

Gente, estamos andando na rua! Olha, que bonita a Rua do Carmo, casa de Elza...

Formidável, admitiu finalmente o chefe. É internet? Ela tirou a vista pela primeira vez da tela e, olhando-o devagar, deixou escapar um sorriso silencioso...

Então, vamos rodar o mundo? Vamos sim, meu filho. Quero ver mais.

Meu Deus, Praça de São Pedro? Vaticano? Podemos descer e andar também? Olha, as pessoas querem ver o Papa...

E agora... calma... Ah, Coliseu? Roma antiga!

Já fui lá. Eu, seu Redelvim, Célio... Eu sei, eu sei que você já foi. Agora me deixa ir. Mostra mais uma foto, meu filho, essa daqui. Que linda: arcos do Coliseu iluminados. Que beleza...

Fotografia... o que é a fotografia... Que espetáculo! concluiu a filha entusiasmada.

É... gostei muito. E afastando o rosto da tela, rematou decidida: Na próxima vez, quero ir à Grécia!



Segundo Ato

Blog? Não sei o que é. Internet também? Como é?

Escondidim, que gracinha... Meu Deus, é Carlinhos!

Papai, papai, volta, vem ver!

Que é isso? Uai, Tio Assis? É para Assizinho? interessante...

Ai, que saudade; saudade mesmo, minha filha...

Que bonito! lembrança de meu filho...

Todo mundo pode ver e ler?

Pode, qualquer um de qualquer lugar. Aqui: marcador indicando o lugar do mundo de onde alguém já viu.

Gente, que interessante... Como se chama mesmo? Blog.

Ah, é blog de Carlinhos. Olha só, escreve muita coisa. Olha, pode-se comentar e escrever?

Que bom...



Ato final

Formidável! Agora, vou lá em baixo, tenho muito serviço para fazer, muito negativo para mexer.

Muito bem! Gostei muito, agora vou descansar. Depois, vamos passear mais. Na Grécia, viu; na Grécia.

Quer lanchar agora, mamãe? E você, Whisky?

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Mundo virtual X Mundo real.

Vejo o orkut como uma ferramenta de grandes proporções entre os brasileiros. O que acontece ali é imediatamente espalhado pelos pares, numa velocidade impressionante. Por outro lado, vejo esse mesmo meio como uma forma desesperada de ser percebido pela sociedade. Explico: As constantes atualizações, as inúmeras ferramentas que fomentam o atual momento da pessoa - em relação a relacionamento, trabalho, sentimento do dia, fotos em eventos - são para mim como um grito, como um acenar de mãos acompanhado de: “Ei todos que fazem parte da minha rede, vejam, não estou mais casado, ou não estou mais trabalhando naquela empresa, ou, fui para Cabo Frio no carnaval, ou ainda, vejam minhas novas comunidades, leiam as entrelinhas e perceberão o que estou sentindo e querendo da vida". Curioso isso, porque é através dessas comunidades que as pessoas esperam ser entendidas - lidas - pelas demais.

Quando se vai a algum evento de grandes proporções, como numa corrida de fórmula 1 por exemplo, o sujeito chega em casa e já procura a comunidade: “Fórmula 1 no Brasil, eu fui!”. Quando a pessoa se interessa por outra, mas não quer ser direta nem indiscreta, procura logo uma daquelas comunidades: “O que tem que ser meu, será meu”. Todos os amigos da rede olham aquela comunidade e podem não entender nada, mas o recado foi dado e, claro, só pode ser para uma pessoa daquele ciclo social.

É interessante essa construção de laços virtuais. Mantemos nossa vida real paralela a esse mundo da internet. Só que, e a real importância desse mundo on-line? Que tipo de relação se é construída de fato nesse universo? Elas substituem os reais encontros, as histórias da relações entre as pessoas? E as durezas e as dificuldades da vida, podem ser resolvidas nesse universo sem profundidade da internet?

Eu tenho minha resposta para essas perguntas. Acredito que longe da máquina, nas ruas e nas relações interpessoais, o desafio é muito maior. Não há muito espaço para relacionamentos com o mínimo de interligação, não se tem como “deletar” um problema desligando o computador ou bloqueando alguém de sua rede. Os problemas no mundo real são obrigatoriamente encarados de frente (querendo ou não), cada um a sua maneira. Por outro lado, as alegrias, as demonstrações de amizade e de amor são muito mais genuínas no plano real do que os formados pelos fios dos pcs. O sorriso de um grande amor, uma declaração de carinho, amizade ou confiança, valem muito mais do que fotos, textos pré-moldados, conversas superficiais e um apelo virtual do tipo: "Vejam como está minha vida, vejam minhas fotos, vejam minhas comunidades, desvendam meus pensamentos..."

Posso estar nadando contra a corrente dos jovens de hoje, mas prefiro remar sozinho para um lado que acredito do que fazer parte de um universo preestabelecido, onde tudo e todos parecem repetir gestos e atitudes, como um rebanho muito bem treinado.

E você, o que acha disso tudo? Deixe sua opinião?!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Páginas de papel e os sentidos.

Não há nenhuma novidade no que acabo de constatar, mas é algo que vale como reflexão, pelo menos: Agora mesmo que destilo o veneno por essas linhas, tenho - em outras abas do navegador - um jornal aberto, um site de um concurso que irei prestar, meu e-mail ansioso a espera de alguma novidade, além do twitter também logado e do msn que não para de ver novos usuários online, ocupados, ausentes... E eu aqui, no meio desse turbilhão de informações agindo como o ser mais tranquilo do mundo, concentrado que só eu...

Mas é interessante como nos adaptamos a essas novas formas de nos relacionar com as coisas e suas incansáveis novidades. Estamos sempre aptos para o novo, mesmo que para isso tenhamos que abdicar de velhos hábitos. O curioso é notar que a cada dia estamos expostos e dispostos a ocupar todos os nossos sentidos. Nesse momento, por exemplo, não paro no teclar das letras; minha vista mal pisca diante da claridade do monitor - e protegida pelos óculos; ouço o teclar das letras e a rádio CBN aberta em outra aba do navegador; só não há tempo para sentir cheiros e nem para tirar o amargor da boca. É muita coisa para uma pessoa só! Mas acredito que, aos poucos, as crianças vão nos superando nesses quesitos, o que não vem a ser uma qualidade, é verdade.

Se compararmos com as sensações que o livro proporciona(va), então... a internet e suas ferramentas são muito mais atraentes para mentes plugadas 24 horas no mundo tecnológico. O que dizer das simples folhas sem figura, que se sucedem num emaranhado de páginas de igual formato, mesmo tamanho de letra, sem um atrativo a mais, um plus que leve a outros mundo, como faz a internet - no livro nem há links para figuras, não é mesmo?

Tudo bem, os argumentos são fortes a favor do virtual, mas e se eu disser que prefiro o bom e velho amigo das páginas de papel. Crucificado serei? Pode ser, mas lá há um mundo imaginário a ser desvendado, inigualável no mundo colorido e ultra-pós-moderno do universo digital. Naquele livro com cheiro de guardado, há uma infinidade de possibilidades de uma mesma história. Cada um imagina seu personagem, cada um desenha seu cenário e imagina como o autor conseguiu pensar numa história tão bem bolada! Lá há espaço para devaneios incríveis - que esse que vos escreve tanto gosta, para uma fidelidade impossível de se encontrar nos mais criativos e atraentes sites.

Desculpem-me os que discordam dessas saudosas palavras - e fiquem à vontade para discordar, mas o que relato para vocês não é uma mágoa de quem vê seu amor envelhecendo e sendo subistituído por uma nova beldade escultural, trata-se apenas de um sentimento construído nesses um quarto de século de minha vida. Acredito no novo e na criatividade que a internet e suas ferramentas proporcionam, mas não abandono o velho estilo de inventar um mundo meu, por linhas de um outro autor. Há espaço para tudo e para todos. Fico por aqui com essas linhas digitais e volto ali para a mesa, me entregando àquele ópio de papel e linhas que precisa ser terminado de ser consumido.



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