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terça-feira, 9 de março de 2010

No embalo do Chico.

Estava aqui sem muitos afazeres e comecei a procurar umas músicas do Chico Buarque. Só que - até para variar um pouco - troquei a sonoridade das músicas pelas letras mudas, secas e poéticas. Isso mesmo, minha busca foi sem áudio, da forma mais simples e mais completa de se fazer poesia. Li algumas músicas sem tentar associar com suas melodias. E, para minha (ingênua) surpresa, pude constatar mais uma vez, quanto esse Chico Buarque é talentoso, certeiro, poeta.

Comecei com a músicas "O Velho", uma poesia que lá pelas tantas nos diz:
"O velho vai-se agora
Vai-se embora
Sem bagagem
Não sabe pra que veio
Foi passeio
Foi passagem".

Esse velho que de tanto ir-se indo, acabou partindo e deixando a poesia na voz de quem podia. Viva Chico! E mais, continuo em busca de outras dessas pérolas e encontro logo aqui a música "Linha de Montagem", onde o poeta brinca com os momentos de folga dos operários:
"As cabeças levantadas
Máquinas paradas
Dia de pescar
Pois quem toca o trem pra frente
Também de repente
Pode o trem parar".

E esse operário, descansado e pronto para a batalha do dia-a-dia também se fortalece na labuta, como em "Construção":
"Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina".

E, tijolo pós tijolo, Chico vai me encantando ainda mais, numa espécie de admiração edificante, principalmente quando cria poesias como em "Eu quero Um Samba":
"Essa moça tá decidida
A se pós, pós-modernizar
Ela só samba escondida
Que é pra ninguém reparar".

E essa moça, de brilho único e samba apaixonante não cansa de aparecer em suas músicas. Aqui e ali ela dá o ar da graça e nos faz encantar. É o caso de "Divina Dama":
"Tudo acabado e o baile encerrado
Atordoado fiquei
Eu dancei com você, divina dama
Com o coração queimando em chama".

Cansado, não; surpreso, sim. Mas agora, caros amigos, vocês me dão licença que preciso ouvir essas canções. Elas já falaram sem ser ouvidas, mas meu sentido mais curioso precisa ser presenteado. Vou-me ao encontro dessas músicas. Saio de cena das letras para ser presenteado pelo som. Convido-os a me acompanhar. Vamos?

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Homenagem - tio Assis.

As cortinas se fecham no campo da inspiração e do incentivo desse blog. Aquele que mais deu força e mostrou satisfação em ler essas linhas não está mais entre nós. É nesse difícil momento de despedida que esperei as palavras se manifestarem para prestar uma homenagem mais do que merecida.

Assis era tio, professor e verdadeiro admirador da literatura e do fantástico mundo das letras. Agora que o céu - azul celeste como seu Cruzeiro - recebe esse novo integrante, nós, aqui da Terra e simples seres escondidos nesse blog paramos para dizer um adeus dolorido, mas aguerrido como Assis, que bradou lutas louváveis pela vida, sendo um vitorioso mesmo em seu momento de sair de cena.

Escrever essas linhas sem emoção é impossível. Mãos, músculos e mente - todos trêmulos - são inevitavelmente reflexos dessa perda. Fiquei refletindo por esses dias qual seria a graça de manter o ESCONDIDIN tendo a certeza que não teria o comentário do tio Assis nos textos. Fiz ponderações, pensei em encerrar o blog, mas resolvi, enfim, que irei continuar escrevendo nesse espaço - até o momento que achar necessário ou que achar que ainda tenho gás.

Não mudarei meu foco de inspiração. Sei que não receberei os ansiosos comentários do tio Assis pedindo a continuação da história, ou cobrando um texto novo devido ao espaçado tempo sem publicações. Mas agora escreverei guiado por aquela estrela que surgiu no céu. Vejo-a nesse momento enquanto escrevo. Ela brilha, ela é nova e parece torcer de fato por cada letra que sai desses dedos inquietos.

Agora a estrela, azul como seu coração, tio, servirá de guia para os meus passos, para minha permanência nesse meio das palavras. Cada ponto final, cada encerramento de um texto terá uma dedicatória implícita a você. Seremos confidentes e companheiros das linhas que vão nascendo impensadas, das histórias que vão surgindo em cada dia.

O caminhar dos dias sempre será acompanhado por um vazio difícil de se superar. Mas esse vazio, cruel e inevitável, será suprido por essa certeza da bênção, do sorriso mineiro de quem não precisa dizer para mostrar que aprovou.

Um dia você falou: “Escreve mais que está interessante“. Hoje eu respondo, tio: “Escrevo sim, com sua companhia e sua bênção aí do céu”.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Abrindo alas para o craque.

Amigos, não costumo fazer isso, mas o texto do Tostão (ex-craque dos gramados e craque com as palavras) do último dia 09/12/09 merece ser partilhado com todos os leitores que se escondem por aqui. Acho perfeita a análise dele sobre o atual momento do futebol brasileiro e mundial, colocando sua visão sobre a importância do técnico para um time.
Aproveitem mais uma obra desse craque:

"Tostão
O antiprofessor

09 Dez 2009 - 00h24min

Andrade não é apenas o treinador que entende a linguagem dos jogadores, como diz o chavão.
Essa expressão é preconceituosa, como se o ex-atleta, sem diploma e sem um discurso professoral, não tivesse capacidade intelectual de comandar um grupo. Ainda mais se for negro.

Um grande título e um ótimo trabalho não são suficientes para se tornar, definitivamente, um grande treinador. Isso vale também para os jogadores e qualquer profissional. Só com o tempo, teremos certeza. Andrade ainda não é, mas tem tudo para ser um excelente técnico.

Andrade não tem nada a ver com os treinadores-professores. Andrade é o antiprofessor. Trabalha sem se notar.Andrade acabou com outro chavão, o de que Leonardo Moura e Juan teriam que jogar ao lado de três zagueiros.

Assim como o Flamengo, quase todas as seleções que irão ao Mundial atuam com dois zagueiros e dois laterais. As exceções são Chile, Uruguai e Grécia, como mostrou Paulo Vinícius Coelho, no caderno especial da Folha, após o sorteio dos grupos. Se Dunga quiser informações sobre a misteriosa Coreia do Norte, deveria ligar para o PVC..

Andrade não fez apenas mudanças táticas. Ensinou a Toró, Willians e Aírton como se joga futebol. Os três passavam todas as partidas correndo atrás dos adversários, muitas vezes com faltas e pontapés. E ainda recebiam elogios.

Excelente marcador é o que se posiciona bem, joga em pé, não dá carrinho, antevê o lance, antecipa ao adversário e ainda inicia o contra-ataque com um bom passe. É o que fazia Andrade.

Dou importância, mas nem tanto, como deram, às contratações de Álvaro e Maldonado. Depois que o time mudou a maneira de marcar, a ausência de um ou dos dois, em vários jogos, como no último, não prejudicou a marcação.

Além de atuar no mesmo esquema tático, o Flamengo, como a Seleção Brasileira, prefere marcar mais atrás e atrair o adversário para contra-atacar com poucos passes em direção ao gol. Quase todos os times do mundo jogam assim. É o futebol globalizado, eficiente, que veremos na Copa.

Prefiro outro estilo, de marcação mais adiantada, por pressão e com muita troca de passes, como joga o Barcelona. Todos marcam muito e todos jogam muito. O futebol fica mais bonito, sem perder a eficiência. Dos times brasileiros, o Cruzeiro é o que mais tenta jogar dessa forma.

Detesto ver jogadores que, para se livrar da bola, cruzam para a área. E, às vezes, dá certo. Com exceção de algumas poucas partidas entre as melhores equipes da Europa, o futebol que se joga lá é o mesmo que se joga aqui.

O futebol evoluiu na preparação física, na velocidade, nas jogadas ensaiadas, nos lances aéreos e em várias outras situações. Nada disso impede que se jogue também com muita troca de passes, criatividade e fantasia. É isso que dá encanto ao futebol.

O bolo, sem a cereja, fica feio, seco e amargo.

Não sou um sessentão saudosista, de achar que tudo no passado era melhor, nem um admirador do futebol moderno e do que se joga hoje na Europa. O futebol que gosto não é o do passado nem o do presente. Gosto de bom futebol."

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Mundo virtual X Mundo real.

Vejo o orkut como uma ferramenta de grandes proporções entre os brasileiros. O que acontece ali é imediatamente espalhado pelos pares, numa velocidade impressionante. Por outro lado, vejo esse mesmo meio como uma forma desesperada de ser percebido pela sociedade. Explico: As constantes atualizações, as inúmeras ferramentas que fomentam o atual momento da pessoa - em relação a relacionamento, trabalho, sentimento do dia, fotos em eventos - são para mim como um grito, como um acenar de mãos acompanhado de: “Ei todos que fazem parte da minha rede, vejam, não estou mais casado, ou não estou mais trabalhando naquela empresa, ou, fui para Cabo Frio no carnaval, ou ainda, vejam minhas novas comunidades, leiam as entrelinhas e perceberão o que estou sentindo e querendo da vida". Curioso isso, porque é através dessas comunidades que as pessoas esperam ser entendidas - lidas - pelas demais.

Quando se vai a algum evento de grandes proporções, como numa corrida de fórmula 1 por exemplo, o sujeito chega em casa e já procura a comunidade: “Fórmula 1 no Brasil, eu fui!”. Quando a pessoa se interessa por outra, mas não quer ser direta nem indiscreta, procura logo uma daquelas comunidades: “O que tem que ser meu, será meu”. Todos os amigos da rede olham aquela comunidade e podem não entender nada, mas o recado foi dado e, claro, só pode ser para uma pessoa daquele ciclo social.

É interessante essa construção de laços virtuais. Mantemos nossa vida real paralela a esse mundo da internet. Só que, e a real importância desse mundo on-line? Que tipo de relação se é construída de fato nesse universo? Elas substituem os reais encontros, as histórias da relações entre as pessoas? E as durezas e as dificuldades da vida, podem ser resolvidas nesse universo sem profundidade da internet?

Eu tenho minha resposta para essas perguntas. Acredito que longe da máquina, nas ruas e nas relações interpessoais, o desafio é muito maior. Não há muito espaço para relacionamentos com o mínimo de interligação, não se tem como “deletar” um problema desligando o computador ou bloqueando alguém de sua rede. Os problemas no mundo real são obrigatoriamente encarados de frente (querendo ou não), cada um a sua maneira. Por outro lado, as alegrias, as demonstrações de amizade e de amor são muito mais genuínas no plano real do que os formados pelos fios dos pcs. O sorriso de um grande amor, uma declaração de carinho, amizade ou confiança, valem muito mais do que fotos, textos pré-moldados, conversas superficiais e um apelo virtual do tipo: "Vejam como está minha vida, vejam minhas fotos, vejam minhas comunidades, desvendam meus pensamentos..."

Posso estar nadando contra a corrente dos jovens de hoje, mas prefiro remar sozinho para um lado que acredito do que fazer parte de um universo preestabelecido, onde tudo e todos parecem repetir gestos e atitudes, como um rebanho muito bem treinado.

E você, o que acha disso tudo? Deixe sua opinião?!

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