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quarta-feira, 2 de março de 2011

Letra que me embaralha.

Gol de letra no futebol é como esnobar o goleiro, como chegar para ele, parar a jogada e dizer: - Meu camarada, olha como esse lance tão simples desmonta toda sua semana de treinamento. Será que você é tão bom assim mesmo?

Tudo bem, talvez há um rigor nesse meu diálogo imaginário, mas foi assim que me senti quando vi o gol do Falcão - aquele craque do futsal - sobre um time que, confesso, desconheço o nome. Me coloquei na pele do goleiro, senti-me humilhado, deu vontade de desligar o pc, ou sair de quadra, caso eu fosse o arqueiro na vida real.

Futebol tem esse encanto, tem esse poder de fazer com que seres tão iguais e comparavelmente preparados se comportem - e se coloquem - em extremos: um brilha de um jeito mais simples, quase infantil; outro é vencido por todo esse beabá, mesmo estando preparado para combater e se deparar com golpes duros, verdadeiras pancadas de jogadores profissionais.

Mas a letra falcaniana desatou o nó do profissionalismo, quebrou o acordo da regra do jogo, tornou infantil a categoria adulta, fez o sonho dominar a quadra... Embarquei na viagem, mas peguei a carona no vagão errado, fiquei do lado mais fraco, virei o goleiro.

Foi duro, foi desonesto até. Mas, por outro lado, é gratificante enfrentar toda essa magia, ser envolvido pela verdadeira arte da bola. Fui alvo, fui vítima, mas vi tudo de perto, sou privilegiado. O cara é um monstro, e joga sabendo dos seus poderes. Treinamos a semana inteira para enfrentá-lo, mas não deu, claro que não deu, ainda bem que vem por aí jogos normais, contra atletas normais...

Normalidade, aliás, é sair desse real mundo e encarar esse virtual jogo dos sonhos. Como é bom ver um talento demonstrando suas habilidades, é possível viajar nesse universo, assumir posições, sentir raiva e sorrir com um simples lance. E tem gente que acha que isso é humilhar o adversário, que deveria ser proibido.... É, pode ser, a humilhação foi grande!

OBS.: Vejam o lance do Falcão: http://video.globo.com/Videos/Player/Esportes/0,,GIM1448937-7824-GOLACO+FALCAO+PELO+TORNEIO+DE+GRAMADO+DE+FUTSAL,00.html

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Os Barulhos do Rio - Augusto Barros.

Hoje quem manda o recado é o amigo Augusto Barros, do blog "Poesias do Augusto": http://poesiasdoaugusto.blogspot.com/ (indico aos que curtem poesia).
Boa leitura e deixem seus comentários...

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OS BARULHOS DO RIO
       
   Sábado à noite, às dez horas, estavam deitados na cama. Talvez para dormirem, mas assistiram um filme. A mulher, fitando a televisão, indaga ao marido:
   Vamos à praia?
    A essa hora?
    E o que é que tem?
    Você por acaso olhou o relógio?
   Sim.
    Não parece.
   Ah amor! Deixa de ser desanimado vai!
    Não é desân...
    A praia a essa hora é linda! Aliás, o Rio de Janeiro todo a essa hora é lindo! Tão romântico...
    Hum.
   O Cristo iluminado... o Pão-de-açúcar...
   Os assaltos... os furtos...
   Ipanema banhada pelo luar... o barulho das ondas...
   As balas perdidas... o tráfico de drogas...
   Segundos de silêncio. O marido a olha com semblante de negação. A mulher, então, exclama:
   Desisto!
   Ótimo. Vou dormir. Beijo.
    Beijo. Boa noite, né?!
   Boa noite amor.
   Ele apaga o abajur ao seu lado na cabeceira. Não passa dez minutos para que a mulher, novamente, exclame:
   Que saco!
   O que foi dessa vez?
   O que foi?! Não está ouvindo esse barulho?!
   É a sirene da polícia, oras.
   Não está dando para dormir assim!
   Então feche os olhos e imagine o barulho das ondas em Ipanema. (E ele riu ironicamente)
   Chato!
   A mulher vira para o lado levando o travesseiro ao ouvido. Demora a dormir.

                                                                     

 Augusto Barros Mendes

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Releitura: "Meu pátio, minha história".

Continuando nas 'comemorações' dos três anos do ESCONDIDIN, hoje publico um texto "escondido" nesse espaço no dia 03 de setembro de 2009. Espero que gostem dessa releitura e deixem seus comentários. Qualquer hora volto com texto inédito.

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Os carros enfileirados são como lembranças do passado. Cada modelo é o representante de um tempo e suas histórias, sua data de fabricação é seu número de identidade. Aquele lá, o FUSCA marrom é o mais velho de todos, remete-se ao tempo da ditadura. Veja como em sua lataria e nos detalhes o tempo foi cruel, como sofreu o coitado...

Olhando mais adiante, encontramos uma velha relíquia, aquele MONZA VERMELHO com fita verde e amarela amarrada na antena. Ele, apesar da idade, transborda jovialidade e não se cansa de repetir, através do ronco do seu motor, que fez parte do movimento das DIRETAS!

A história vai mudando o design dos veículo. Eles ganham em tecnologia e em modernidades diversas. Vejam o ar esportivo daquele ESCORT XR3-amarelo-conversível, todo exibido ali em cima. Teve que modificar o motor depois de ficar “sem voz” de tanto repetir em alto e bom som: “É Tetraaaa....”, em 1994. Mas não há arrependimento, há 24 anos o Brasil não ganhava uma Copa do Mundo.

Mas os anos pós-Tetra parecem passar - covardemente - mais rápido. Mal pude curtir a primeira geração do GOL-BOLA e os filhos, netos e bisnetos desse sucesso de vendas já rodam modernos e fogosos pelas ruas. Só que meu pátio imaginário continua cheio de relíquias apossadas por mim nesse meu poder de sonho. Ainda há TEMPRAS, de um luxo definidor que marcou época; CORSAS e sua capacidade de manter-se na ativa; HONDAS, mais que luxo e rompedor de um passado pacífico para um presente avassalador.

Todos esse veículos, e suas respectivas épocas, são apenas uma construção histórica do período em que nasci, que acompanhei de fato os fatos, e que perdura até hoje, com toda essa vida agitada - que mal cabe em 24 horas.

Esse luxuoso (mais de lembranças pessoais que em valores) pátio não existe de verdade, não possuo esse poder financeiro de colecionar ícones de épocas que retrataram momentos marcantes. No entanto, em minha memória, cada peça desse museu tem valor inegociável. São relíquias que me formaram e me formam, tendo como único preço o tempo, que cobra caro e passa sem piedade.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A arte de seduzir - Frei Beto.

Hoje peço licença aos amigos escondidos nesse blog para publicar um texto do Frei Beto, escritor e filósofo sábio em suas reflexões. O texto que os amigos irão ler foi publicado no jornal O GLOBO, domingo, dia 20/02/2011. Uma ótima análise sobre nossa sociedade nos dias atuais. Deixem seus comentários e deliciem-se com esse texto.

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A arte de seduzir - Frei Betto


Toda ditadura é megalômana. E a que governou o Brasil sob botas e fuzis, de 1964 a 1985, não foi diferente. A construção da rodovia Transamazônica simboliza a arrogância do regime militar.

Rasgou-se a selva de leste a oeste. Abriu-se a estrada em paralelo a caudalosas vias fluviais. Em vez de aprimorar o sistema de navegação pelo Rio Amazonas e seus afluentes, a ditadura preferiu obrigar a floresta a ajoelhar-se a seus pés. Possantes máquinas puseram abaixo árvores milenares encorpadas de madeiras nobres, destruíram ecossistemas preciosos, alteraram o equilíbrio ecológico da região.

Tudo em nome de uma palavra tão propalada e, no entanto, vazia de significado: desenvolvimento. Leia-se: exploração predatória da maior floresta tropical do mundo, aberta à voracidade de mineradoras, madeireiras e, sobretudo, do latifúndio predador, quase sempre movido a trabalho escravo.

“No meio do caminho havia uma pedra”, repetiria Drummond. Povos indígenas. Como impedir que oferecessem resistência? Simples: através da arte de seduzir. A Funai ergueu tapini (cabanas de folhas). Dentro, utensílios de caça e cozinha, ferramentas etc. Os índios, encantados com os objetos, acolhiam gentilmente os caraspálidas. E ingenuamente eram cooptados pelas relações mercantilistas. Em troca de bugigangas perdiam saúde, terras, liberdade e vida.

Detalhe: o mato, não o gato, comeu a Transamazônica, fonte de riqueza e poder de umas tantas empreiteiras.

Hoje, os índios somos todos nós. Os tapini, os shoppings, a publicidade, as veneráveis bugigangas que nos agregam valor. O inumano imprime sentido ao humano, como faziam os deuses de ouro denunciados pelos profetas bíblicos: tinham boca, mas não falavam; olhos, mas não viam; ouvidos, mas não escutavam; pés, mas não andavam...

Estamos todos somos sob o efeito hipnótico do consumismo. Não importa se o produto é frágil ou de má qualidade. Seu design nos cativa. Sua publicidade nos faz acreditar que estamos comprando a oitava maravilha do mundo! E, ingenuamente, que se trata de um produto durável, mesmo conscientes de que o capitalismo não se importa com o direito do consumidor, e sim com a margem de lucro do produtor.

Como se livrar do labirinto consumista que, na verdade, se consuma nos consumindo? Não vejo outra porta de saída fora da espiritualidade, somada a uma nova visão do mundo. Sem espiritualidade corremos o risco — sobretudo os mais jovens — de dar importância àquilo que não tem. Imbuídos da baixa autoestima que nos incute a publicidade (“você não é ninguém porque não possui este carro, não veste esta roupa, não faz esta viagem...”), encaramos a mercadoria como algo que nos agrega valor. Não basta a camisa, a bolsa ou o tênis. Têm que ser de grife, com a etiqueta exibida do lado de fora. Assim, todos à nossa volta haverão de reconhecer o nosso status. E quiçá invejar-nos. E aquele ser humano que, ao lado, carece de produtos refinados, é visto como não tendo nenhuma importância. Pois não se enquadra no atual princípio pós-cartesiano: “Consumo, logo existo.”

É espiritualizada toda pessoa cujo sentido de vida deita raízes em sua subjetividade e cujas opções são movidas por ideais altruístas. Ela não faz do que possui — conta bancária, títulos, casa, carro etc. — seu fator de autoestima. Sabe que tem valor em si, que não é nutrido pela posse de bens, e sim por sua capacidade de fazer o bem aos outros. Sua autoestima se funda na generosidade, solidariedade e compaixão. Ela é feliz porque sabe fazer outras pessoas felizes.

O mercado tudo oferece. Todos os seus produtos nos chegam embrulhados em papel de presente: se compramos este carro, seremos felizes; se bebemos aquela cerveja, nos sentiremos alegres; se adquirimos tal roupa, ficaremos joviais. O único bem que o mercado jamais oferta é justamente este que mais buscamos: a felicidade. No máximo, o mercado tenta nos convencer de que a felicidade é o resultado da soma de prazeres

Ora, a felicidade é um bem do espírito, jamais dos sentidos, da cobiça ou da arrogância. É feliz quem ousa destampar o próprio ego e conectar-se com o Transcendente, o próximo e a natureza. Esse irromper para fora de si mesmo tem nome: amor. E se manifesta nas dimensões pessoal, no dar de si ao outro, e social, no empenho de construir um mundo melhor.

FREI BETTO é escritor.

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