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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

...as cortinas se fecham lentamente...



Saber que a velinha apagou  é doído demais. Vó era tão serena, combinava tanto com paz... Perder vó é como ter só na memória os grandes momentos da minha infância passada em BH. Os meses de férias da escola em que lá, na grande casa, eu morava. Como eu admirava as histórias contadas por ela...

Corria para cama dela e de vô quando a saudade de casa apertava. E vó cantava:  

[“Na hora em que as cortinas se fecham lentamente, a noite vai descendo silenciosamente...”] - e eu me acalmava, pegava no sono, deitado entre dois.

Hoje as cortinas se fecham, as cortinas de nossos sonhos, das flores lindas que ela molhava e do presépio enorme que eu a ajudava a preparar. Vó me ensinou mais que ser um cara correto, ela acreditou nos meus sonhos, riu comigo das coisas engraçadas da vida, me mostrou que amizade e alimento são coisas importantes: sempre cabe mais um na mesa, a fartura da comida é para os que chegam sem avisar. Aprendi que se pode acolher em casa outros filhos postiços, mesmo quando se tem 10 para criar. Sobre amizade, sempre quis saber, curiosa, dos amigos que fiz e sempre se orgulhou deles junto comigo, me ensinando a valorizá-los.

[“Os olhos cerro e durmo em meu quentinho leito, sonho por mil mundos, passeio satisfeita...”].

Me dizia também que não devemos chamar ninguém de BURRO, “é uma palavra muito forte, meu filho, é muito feio”. Sempre sorria quando chegávamos de viagem para visitá-la - abria um sorriso enorme, gostoso, sorriso de vó... E sempre “reclamava” na hora que tínhamos que voltar. Das últimas visitas, já no hospital, peguei-a de surpresa e ela: - meu amor...

Que saudade eterna, vó.

Só vó... Só ela falava “meeeeel”; só ela me dava conselhos amorosos tão ultrapassados, mas tão modernos...; só ela que eu tomava a benção e recebia um “Nossa Senhora do Carmo te abençoe, meu filho” mais lindo; só ela sorria com alma. Só ela, mesmo já com os 94 anos falava: - hum, que vontade de tomar um choppinho... Só vó imitava o Michel Jackson toda linda; só ela ficava deslumbrada com a internet, mesmo sem entender muito bem; achava aquilo tudo fantástico, uma maravilha.

[“Ainda ontem, bem me lembro, sonhei que entrei numa cidade e que cidade linda!”].

Vó cozinhava pra gente, fazia um pão absurdo, escrevia nossas iniciais no empadão quando chegávamos. Preparava um frango a molho pardo que é só o meu prato predileto. Vó me alimentou de sonhos... me fez viver uma infância verdadeira, me fez me orgulhar do hino nacional, me fez aprender a respeitar os mais velhos, me deu bronca quando atrasava para os eventos da família, quando sujava o pé de preto, jogando bola sem tênis. Me presenteava, me ensinou a rezar, a acreditar demais em Deus. Talvez seja minha maior ligação com Ele, seja meu elo mais perto do Divino; da nossa raiz forte, aprofundada nas belezas das terras mineiras de Diamantina. Me fez valorizar família, a nossa família...

Por causa dela que descobri que existe dia da avó, por ela comprei um vaso lindo de flores e recebi um sorriso lindo em troca... 

Por causa dela tudo aconteceu em nossa família, ela trabalhou nos Correios, mesmo grávida, lá no meio do século passado.

[“Pena é não ser verdade. As ruas todas eram de pão-de-ló calçadas, de rapadura as casas, os muros de queijada”].

Agora a gente sente muito, perder duas avós em tão pouco tempo não é fácil. Mas elas descansam e nos abençoam lá de cima. Vó Côca baila uma música linda em serenata; Vó Côca, serena, recebe a bênção dos deuses, é recebida pelos nossos que lá em cima já se encontram. 

Vó Côca nos deixou aqui, estamos tristes, desacostumados sem esses anos todos de companhia e alegria, mas ela é eternamente a dona de meus sentimentos mais verdadeiros e puros, de menino que a admira só por fazer parte de sua família, de ser neto, de ter o sobrenome, de ser dela. 

A sua bênção, minha avó, e que Deus nos abençoe, ainda mais iluminados com sua companhia.

Vó Côca é assim, é amor que transborda!

[“A catedral enorme era de goiabada, 
com um sino e duas torres, 
todos de marmelada. 
Na biblioteca tinha só livros de biju, 
mesas de queijo suíço, 
cadeiras de sagu. 
Empadas descobertas serviam de canteiros, 
por flores tinham dentro os camarões inteiros. 
Chovia cajuada, 
groselha e capilé, 
em lamas de groselha eu escorregava o pé. 
E eu comendo sempre, 
comendo sem parar, 
quando a mamãe me veio de súbito acordar. 
Vocês façam idéia como fiquei zangada, 
tinha um pudim de creme apenas principiado!”]

4 comentários:

José Eduardo Petri disse...

Chorei quando achei sua história e a Música que minha "vó" também cantava pra nós em casa! Ela era também assim como a sua avó... quanta saudade...

Lucia Ramos disse...

Estava aqui querendo lembrar do verso sobre O sonho que minha mãe recitava , e pensei....pá não jogar no Google? Quem sabe ele me presenteia? Felicidade minha ao encontrar seu lindo e emocionante texto sobre suas avós! Que lindo ! Éo verso, que não sabia que era música.....Tbm sou avó , de seis netos lindos e pretendo ensinar à eles O Sonho.... Que acho tão lindo e fascinante! Obrigada!

Carlinhos Horta disse...

Muito legal receber um comentário desses. Os textos são eternos. Obrigado pelos comentários e, Lucia, aproveite os netos com essa linda música.

Por nada.

Jaqueline Oliveira disse...

Esta canção embalou para dormir muitas gerações na minha família!
Nada como a voz doce das avós para ninar.

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